A diferença que se é

04/01/2011 01h31

 

 

Jorge Forbes 

sucesso, êxito e destaque querem dizer que caio fora

 

          Usamos indistintamente três palavras para definir um momento de exaltação por uma conquista, são elas: sucesso, êxito, destaque. Notem, como já toquei em artigo anterior, que elas têm algo em comum, a saber, dizem que alguma coisa fica de fora.

            Sucesso vem do latim “cedere”, que dá em português ceder. Sucesso é o que vem depois, como em “sucessão”, em “suceder”. Como diz a canção, com o sucesso “nada mais será como antes”: deixa-se um estado, abre-se um outro, desconhecido, no qual será preciso aprender a habitar.

            Êxito vem também do latim “exit”, palavrinha que aprendemos o sentido nos cinemas da nossa infância, pois estava sempre escrita sobre a porta de saída (em luz verde ou vermelha). “Êxito” se traduz em sair, em deixar. Até quando se deixa a vida, o jargão médico pomposamente disfarça a dor proclamando: -“Obteve êxito letal”.

            Destaque, também de base latina, “destaccare”, retirar, separar, tem origem menos bem definida, entre o germânico, o espanhol e o francês, vide Houaiss. No francês, “destaque” viria de “détacher”, o que quer dizer se desligar, sair do nó, do rolo. No espanhol, “salientar”, e no germânico, sair da “estaca”.

            Essas três acepções contradizem o bom senso que pensa – e pensa sempre mal esse tal de bom senso – que é formidável ser alguém de destaque, que o duro é ser medíocre, comum, genérico. Nada disso.

            Arriscaria dizer que recebo no consultório mais sofrimentos pelo sucesso que pelo seu contrário. É claro que ninguém chega dizendo: - “Vim aqui porque comprei a casa dos meus sonhos”, ou algo parecido, não, mesmo porque até o leigo sabe e tem medo de ser taxado de masoquista. As pessoas se queixam aproximadamente sempre das mesmas coisas porque no fundo a queixa é uma interpretação de que algo não vai bem, e o arsenal de queixas que a sociedade legitima é restrito, daí suas repetições. É como os nomes: temos muitas Marias, Luizes, Albertos, Sofias, porque o nome de uma pessoa é escolhido habitualmente em uma lista socialmente validada. Quando não, aliás, o risco do ridículo é muito grande, todo mundo conhece um exemplo.

            Voltando às queixas, exatamente para não cair no ridículo, essa alguma coisa que incomoda dentro acaba recebendo um nome que não lhe cabe nada bem, confundindo a própria pessoa, quando não, também, seu terapeuta. Leva-se um tempo em psicanálise para se desfazer dos falsos nomes da dor, dos nomes prêt-à-porter disponíveis no mercado. Quantas vezes não ouvimos: -“Mas não é possível que eu esteja sofrendo porque consegui a casa dos meus sonhos, isso vai contra o bom senso”. Êta bom senso trapalhão! É muito difícil para a pessoa legitimar que está mal por algo que supostamente lhe deveria causar o bem.

            Nós sofremos no sucesso, no êxito, no destaque porque aí ficamos sós. O fracasso é solidário, mas a vitória é solitária. Se você diz que está transtornado por ter sido assaltado no trânsito, seus interlocutores vão dizer: - “Eu também”, “Eu também”, “Eu também”. Agora, se você diz que conseguiu finalmente sua casa nova e maravilhosa, vão dizer: - “Você não tem medo de ser assaltado, morando em uma casa?”.

            Chamei a atenção que as três palavras que comento aqui remetem a sair, a cair, a se despregar, mas do quê? Do grupo humano a que pertencemos. Não há quem viva fora de um grupo, seja ele qual for: família, escola, profissão, clube, etc. O conforto do grupo, sim, conforto porque reafirmamos nossa identidade no grupo de nosso pertencimento, exige que cada um ceda em parte suas características singulares, para caber no uniforme grupal. Aí, quando se dá um momento de forte de diferença, por algo que se conseguiu, nos vemos “destacados” e angustiados exatamente pelo nosso destaque.  O que fazer?

            Existe a resposta tímida e a ousada, se quisermos simplificar. A tímida nos leva a recuar, a diminuir o fato acontecido, de preferência a anulá-lo se possível, às vezes até causando um acidente grave. A ousada exige dois movimentos: legitimar a sua diferença, nomeando-a singularmente e incluí-la no mundo, pois ninguém agüenta muito tempo a solidão criativa.  É o que fazem os artistas: vêem uma banda onde ninguém viu e fazem todo mundo cantar a sua Banda, como fez o Chico. O talento nessa operação varia muito, mas o movimento é o mesmo. Não importa o tamanho da platéia, o que importa é não recuar sobre a diferença que se é.

(Artigo publicado em “Psique – Ciência e Vida”, n° 60, Dezembro de 2010).

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