Anda chato ler jornal

20/06/2011 00h31

por Jorge Forbes

Está duro de aguentar o que se publica na grande imprensa, seja nos jornais ou nas revistas semanais. Ficam achando que a internet vai acabar com a imprensa escrita, vai não, se ela acabar, é pela chatice de alguns enfoques. Senão vejamos alguns exemplos recentes.

Um pobre diabo de um francês, meio galanteador barato, que ocorre ser ex-presidente do FMI e candidato a substituir o marido da Carla Grávida Bruni, na presidência da França, parece que se exasperou em eflúvios apaixonados por uma arrumadora de seu quarto de hotel em Nova Iorque. Pronto, foi o suficiente para uma série de interpretadores profissionais se autorizar a dizer tudo e mais um pouco sobre o que se passaria na cabeça desse “Alain Delon depois do desastre”. E toca a conjecturar sobre a sua infância, sobre relações de poder e cama, sobre seu passado de má lembrança e futuro aterrorizante, e tudo isso sem a menor cerimônia, como se Freud e Lacan autorizassem como verdade as fantasias pessoais desses comentadores, que, por sua vez, fantasiam sobre as fantasias do prisioneiro de muitos milhões de dólares. Quanto desperdício analítico! Pena não aproveitar para estudar o choque de moralidades que esse fato proporciona, culminando na ministra, igualmente francesa, ávida pelo cargo recém desocupado, que deixa sorrateiramente seus eleitores pensarem que com ela o negócio é seguro, porque mulher não tem vocação para ser tarada. Pano rápido.

Enquanto isso, nessas plagas, ficamos de novo gastando tinta com o ministro de sempre. Nada mudou, é ele aí outra vez, com seus partidários e seus banqueiros, sua cara de monge medieval, daquele que guarda o segredo das escrituras sagradas das histórias dos enriquecimentos. Quem vai atirar pedra na santidade? Para que argumentar o óbvio, comparar pela enésima vez com o triste fim do caseiro que ousou levantar a cortina da sacristia e por isso foi para o inferno? Interessante é examinar que o país pode ir bem apesar desses personagens, como indica o profundo menosprezo que a juventude dá ao que se passa nas capitais. Seus pais pensam que os filhos são um bando de alienados. Nada disso. Os meninos de hoje, verdadeiros mutantes, apontam a novas formas de fazer política e de governança, deixando as velhas carcaças aos urubus que com eles há muito convivem em mútuo merecimento. Serão todos sepultados sob as flores do cerrado, é só aguardar mais um pouquinho.

E tem também os escândalos dos supostos neo-nazistas John Galliano e Lars von Trier. Alguém realmente acredita que o costureiro e o cineasta sejam nazistas? Perigosos anti-semitas? Agora, que ambos têm a enorme capacidade de se fazerem detestados, lá isso é inegável. Se há alguma coisa que causa repugnância, no mundo ocidental especialmente, é qualquer atitude anti-semita. É um ponto que a sociedade não negocia, não flexibiliza; assim, em vez de dar asas à imaginação dos parentescos hitlerianos desses dois, porque não ver o óbvio: eles são autores de suas desgraças. Um, antes do seu principal desfile do ano, outro, antes do seu principal filme do ano. Ter sucesso é cair fora do comum. Quem tem sucesso excede. A palavra sucesso vem de ceder. Difícil suportar o sucesso e a enorme expectativa que vem do outro sobre você. Com medo de ser engolida, a pessoa pode se mostrar carne podre envenenada. Vai ver que foi assim.

Do Pimenta, não vou falar, passo.

Finalmente, aparentemente em outra linha, mas só aparentemente, a imprensa explora uma nova doença batizada, criativamente, por um físico espanhol, de infoxicação. Fácil de entender o neologismo que junta informação com intoxicação. Coitadinhos de nós - segundo o El País que publicou, e a imprensa local que repercutiu - que estaríamos sofrendo desse novo mal da pós-modernidade. Mas que coisa! Será que essa ideologia de transformar tudo em doença vai continuar fascinando os periodistas por muito mais tempo? Não é difícil compreender que se é bem aceito transformar os fatos da vida em doença é porque se for doença tem remédio. O sonho é que para tudo tenha remédio, portanto só não é feliz quem está doente.

Triste felicidade!

(Artigo publicado no site Vida Boa - Clique para ler o artigo no site Vida Boa)