Aprendendo a Desaprender

01/01/2003 00h00

Jorge Forbes

A vaca sabe ser vaca, mas o homem não sabe ser homem.

À diferença de todos os animais, o ser humano nasce despreparado para a vida, para sobreviver neste mundo. Deixado à sua própria sorte, ele não saberá o que comer, como se comunicar, amar, produzir, enfim entre ele e o mundo existe uma distância que pede a existência de um articulador, de um provedor.

Utilizando uma metáfora atual, se pensarmos que o mundo é o hardware, é necessário um software que permita operar esse mundo. Teremos, por conseguinte, tantos mundos quanto softwares. Como seria insuportável um caleidoscópio de mundos, sendo necessária uma conveniente estabilidade, a sociedade privilegia um software comum que possibilita e estrutura relações sociais.

Também podemos pensar que o mundo é um como um mar aberto em dia sem nuvem ao meio-dia. Caymmi o chamava de marzão besta. Podemos contemplá-lo mas nos perdemos no seu infinito. Imaginando agora uma rede de pescador quando lançada, se estendendo paralela à superfície da água, sem tocá-la, o sol atravessando a malha recorta o mar. É o trabalho de uma língua no contínuo amorfo da realidade: recorta-o criando uma janela desde a qual uma integração pode existir.

Uma era é um longo tempo onde o mundo é visto pela mesma janela: é um recorte de longa duração. Tofler propôs que até hoje existiram três eras: Agrária, Industrial e Globalizada. Cada época apresenta uma forma específica de pacto social, de formas de amar, de sofrer, de chorar, de trabalhar, de casar, de educar, de curar, de julgar...

Neste início de século XXI somos passageiros de uma mudança: do tempo da industria para a globalização. O que mudou? Expliquemos através de nossa metáfora do software.

Freud construiu o mais potente e bem aceito software para o século passado, o século XX. Ele o nomeou complexo de Édipo. Sua estrutura é de uma simplicidade própria aos gênios. Estabeleceu um ponto ideal a ser conquistado: a mãe; um elemento com dupla função, a de impedimento e a de condução: o pai; e, finalmente, a pessoa desejosa de atingir a felicidade, o amor, devendo para isso passar pelo pai. Freud interpretou sua época, e assim fazendo construiu, pois ao mesmo tempo uma interpretação revela e cria, uma sociedade orientada verticalmente no amor do pai, ou seja, na sua regra aprendemos a compreender a família orientada pelo pátrio poder e todos os detalhes do nosso mundo afetivo: o nascimento, as fases oral, anal, fálica e genital, a sexualidade, os fetiches, os amores e os ódios; do pipi na cama ao Prêmio Nobel. Nada escapava à clave musical do Édipo. A tal ponto que esse software é vendido hoje em qualquer banquinha da 25 de Março.
Este raciocínio exemplificado com a família é igualmente válido, e facilmente transponível, para a estrutura empresarial, política e econômica, sempre da Era Industrial. Nesse formato constituíram-se as empresas hierárquicas e piramidais, os políticos caudilhescos, o amor à pátria, a ordem e o progresso.

A globalização é horizontal. Ela não responde à supremacia do pai e dos seus representantes políticos e empresariais, ou religiosos, para o desespero de muitos. Estamos em um novo mundo além do pai, além do Édipo, além dos ideais, além da supremacia do saber, representante da verticalidade na era anterior. Este mundo novo, para o qual ainda estamos muito despreparados exige novas soluções.

Temos acompanhado tentativas inócuas de tratar novos fenômenos com antigos remédios e as conseqüências são duplamente catastróficas. Primeiro, porque não curam, segundo, porque fingem curar.

Precisamos de uma nova interpretação do contemporâneo que fale de um novo pacto de um novo amor, além do pai, como base do pacto social.

Os amores edípicos eram maniqueístas, cartesianos, estabelecendo os grupos dos “somos a favor” e dos “somos rebeldes”, dos bons e dos maus, dos mocinhos e bandidos, dos bushes e dos sadams, dos sarados e dos doentes.

A globalização em seu amor pós-edípico foge ao cartesianismo das identificações do bem e do mal, estabelecendo o amor na diferença e a responsabilidade na escolha.

Uma pessoa ama a outra não tanto pelo reasseguramento narcísico que a outra lhe oferece, nem por compartilharem a mesmice das horas soporosas passadas frente à televisão, antes do gélido boa noite.

Um alguém ama um outro pelo que o outro o provoca, o incita, o entusiasma, o diverte, o instiga.

A era da globalização derrogando a função do “uno completo”, que tinha resposta para tudo, evidencia que há um silêncio fundamental no desejo: este é o limite. Este é o limite da supremacia do saber e a abertura para a invenção.

Fica entendido que não basta criar, há que se ter competência de suportar o peso da criação, pois necessariamente toda criação é arriscada e sem garantia. A palavra reconhecimento traz em si o “re” indicando que o respeitável público antes aplaude o conhecido do que a novidade.
O que podemos, em decorrência do exposto, esperar da estruturação familiar e da educação em 2005?
Saímos de uma época em que queríamos facilitar a aquisição da aprendizagem e entramos na época do aprender a desaprender, a suportar a falha no saber e o risco dela decorrente.

É possível notar, nos últimos 50 anos, três momentos distintos na educação. O primeiro, em que o importante era acumular conhecimentos, dados, sem se perguntar por quê ou para quê, aprendendo-os. Foi a fase das cópias, das repetições, de tomar o ponto.

Em seguida, a questão passou a ser a integração do conteúdo com a experiência do aluno.

Surgiram os estudos do meio, os trabalhos em equipe e seminários compartidos, a preocupação dos professores e dos pais era de facilitar a aquisição de novos conteúdos, saindo como atitude compreensiva-companheira ao contrário da repressiva-autoritária anterior.

Os tempos da globalização pedem novos pais, novos professores e novos analistas, não se trata mais do acúmulo progressivo de conhecimentos, mas sim de notar, em qualquer conhecimento, limite na simbolização que não deve ser tamponado, nem pela esperança, nem por um conhecimento paralelo. É a mudança radical da pessoa frente ao saber que podemos desejar, essa mudança implica sair de um estado de garantia e um saber orientado, para um estado de risco e aposta da falha do saber.

O imaginário, o afeto, que nos 20 anos finais do século passado era visto com menosprezo pelas ditas ciências duras, voltam a ocupar um lugar fundamental, pois não haverá ciência sem afeto, nem política sem afeto, nem pedagogia sem afeto, nem psicanálise sem afeto.

A questão fundamental é a maneira de entender essa palavra tão desgastada: afeto.