Bases para uma conversa sobre “Uma psicanálise para o século XXI”

01/08/2003 00h00

Jorge Forbes

Ex-ergo: O pai matou o filhinho; a filhinha matou o pai e a mãe; o aluno incendiou a escola; a senhora se suicidou. E todos pareciam tão sadios, iguais a toda a gente! Está todo mundo perdido: maior que o medo, é o suspense. Surgem calmantes de ocasião, sempre três: psicose, moral e possessão. Voltam o chicote, as lições de moral e cívica e o ato de contrição. Um mundo reacionário se anuncia e Bush, no círculo oval de seu pensamento, reedita as peripécias do grande ditador. Oh tempos, oh costumes!

  1. Para começo de conversa, existem duas concepções sobre a relação do homem e a civilização. Uma concepção harmônica (Rousseau) e uma concepção conflitiva (Freud). A harmônica defende a idéia que, na origem, todos são bons – “o bom selvagem” – e o que se teria a fazer seria voltar a esse ponto inicial. A concepção conflitiva, defendida por Freud, entende que o homem está necessariamente em conflito com a civilização e, em conseqüência, é obrigado a inventar pontes entre ele e o mundo.Todas as soluções que encontra para expor a singularidade do seu desejo são provisórias, obrigando-o a um eterno re-inventar. Como o homem e o mundo são feitos de matérias diferentes, não havendo co-naturalidade, é necessário um software para gerenciar o hardware do mundo.
  2. Freud, no século passado, inventou o mais potente software que conhecemos para orientar a experiência e a satisfação humana. Deu o nome a este software de “O Complexo de Édipo”. Aprendemos a ver o mundo sob a ótica deste software: vivemos no mundo edípico. Com ele aprendemos as fases libidinais de desenvolvimento, a infância, a adolescência, a idade adulta, como amar, como se divorciar, como gozar, como trabalhar, como morrer. Este software funcionou muito bem por ser compatível com um sistema social baseado na organização vertical da ordem do pai e dos ideais. O Complexo de Édipo se estrutura na figura orientadora do pai. O mundo para o qual esse software foi feito - a era chamada industrial - se organizava de uma forma piramidal. A noção do poder decisivo do pai, na família, reaparecia no chefe da empresa, no Presidente da República, no sentimento de pátria.
  3. Necessitamos agora de um novo software: o mundo mudou, passamos da era da industrialização, estruturada verticalmente nos processos de identificação, para a era da globalização, horizontalmente organizada. Tudo aquilo que era valor orientador na industrialização perde a sua importância: estamos em uma sociedade além do pai e é necessário construirmos um novo software. Lacan começou a fazê-lo por meio do conceito de real. Real seria aquilo que, explicando com Chico e Milton, “não tem nome nem nunca terá”.
  4. A psicanálise no tempo de Freud visava descobrir os impasses, os traumas que impediam uma pessoa a alcançar o futuro que idealizava. O futuro era claro, difícil era seu acesso. A psicanálise no século XXI não é um tratamento do passado, mas, ao contrário, é invenção do futuro. A globalização, retirando a orientação paterna, desbussolou as pessoas, que chegam hoje a uma análise, cheias de possibilidades e sem nenhum futuro. Há uma crise da escolha que se revela em alguns como angústia insuportável causadora de depressão, violência inusitada, tóxicomania, fracasso escolar, bulimia, anorexia e outros novos sintomas.
  5. Se antes, o objetivo de uma análise, com Freud, era o de se conhecer melhor, hoje, com Lacan, o que importa é retificar a posição da pessoa em relação ao radical desconhecimento do Real, do “que não tem nome nem nunca terá”, levando-a a inventar um futuro e a sustentar esta invenção.
  6. Essa reflexão, até agora exemplificada com a clínica psicanalítica, também é importante para a compreensão dos novos fenômenos de sociedade do século XXI. O mundo mudou e continuamos tentando tratá-lo com remédios obsoletos da época anterior. Um pai joga o filho de um ano no pára-brisa de um carro em movimento e imediatamente surgem as velhas explicações: psicose, possessão ou tóxicos. Ou seja, três maneiras de dizer que a pessoa estava fora de si. Ocorre que na globalização, o fora de si passa a ser epidêmico, uma vez que não há padrões universais que tenham o poder de organizar a satisfação humana. Somos obrigados a inventar novos parâmetros.
  7. O Real da psicanálise se contrapõe ao Real da ciência. Para a psicanálise do século XXI, o mundo não se divide entre o certo e o errado, direita e esquerda, ocidente e oriente, como quer Bush, maniqueistamente, baseado no pensamento neo-darwiniano.
  8. Freud, para seus contemporâneos, escreveu três famosos textos sobre a organização social: “Totem e Tabu”, “Futuro de uma Ilusão” e “Mal estar na Civilização”. É nossa tarefa, hoje, reinterpretar essa sociedade, não mais à luz do Complexo de Édipo, mas à luz do amor além do pai que exigirá falarmos da responsabilidade de cada um ante sua escolha.
  9. É fundamental discutir e esclarecer a diferença entre responsabilidade jurídica e responsabilidade psicanalítica. Na responsabilidade jurídica - “primeiro eu sou livre, depois eu sou responsável”, na psicanalítica – “primeiro eu sou responsável, por isso posso ser livre”. Ser responsável quer dizer se responsabilizar pelo encontro, pelo acaso, pela surpresa. Essa é a diferença básica nos tempos da globalização.
  10. Não precisamos de mais tempo para compreender melhor, uma vez que o mundo é incompleto e o saber também. O futuro dependerá de como interpretarmos o presente.