CETEMQUE

01/04/2011 22h26

CETEMQUE

- VOCÊ TEM QUE -

Jorge Forbes

 

                       “Cetemque” é a nova palavra do vocabulário contemporâneo. Você vai almoçar, cetemque evitar comer carne; você vai comprar um carro, cetemque blindá-lo; você vai trabalhar, cetemque passar na academia; você vai viajar, cetemque ir no quadrado, no triângulo, no redondo; você vai comprar, cetemque ir no novo shopping; você vai educar, cetemque por em tal colégio; você vai ler, dormir, conversar, enfim, até se você for amar, tem um cetemque pronto para você.

                        Os cetemques estão em toda parte, especialmente em revistas chamadas de qualidades de vida e em malfadados livros de auto-ajuda. É preocupante e assombroso o sucesso dessas publicações que fazem a alegria de suas editoras e de livrarias que se arrogam da cultura e que ainda têm o pejo de dizerem que estão formando leitores. De fato, cetemques vendem muito, pois vivemos uma época em que - desbussoladas pela globalização que lhes tirou os confortáveis padrões de comportamento das gerações anteriores - as pessoas se sentem iguais a galho de enxurrada, se amarrando aqui e acolá, ao vai de uma maré que não sabem enfrentar a não ser com a bóia enganadora de um cetemque.

            O duro é seguir o que lhe indica os cetemques. Rapidamente você se dará conta que eles são contraditórios; se um manda ir para o norte, imediatamente outro lhe ordena o sul; um para o leste, outro para o oeste; e nessa contemporânea rosa dos ventos, quem se vê despetalado é você que resolveu seguir a falsa inteligência dessas fórmulas banais e reducionistas do saber viver.

Assim, os cetemques são muito caras de pau: hoje afirmam algo, amanhã afirmam o seu contrário, na maior tranquilidade. Se questionados vão te explicar indulgentemente que foi o progresso da ciência que lhes fez mudar de idéia. Cetemques adoram começar uma explicação dizendo: “As mais recentes pesquisas mostram que...”. Eles fazem o que se chama em semiótica a camuflagem subjetivante, pois as pesquisas não mostram coisa alguma que não passe pela interpretação do pesquisador. Por isso que você enlouquece se resolver consultar dois ou três médicos com os mesmos exames na mão. Você verá como para cada um o resultado é completamente diferente de para o outro, e o cliente acaba com três diferentes cetemques.

            Teve um político muito conhecido, foi até presidente, que dizia levar em seu paletó um bolso para os cetemques. A cada cetemque que ouvia, agradecia e punha no bolso. À noite, escondido de tudo e de todos, desaparecia com os cetemques daquele dia. Literalmente, como dito, punha os cetenques no bolso e não na preocupação.

            Não há uma só forma de lidar com os cetemques, cada um tem que descobrir qual é a sua. O que podemos afirmar é sobre a pior: ser escravo da expectativa que geram os cetemques.  Muito, mas muito melhor é suportar a angústia da escolha propiciada por um mundo múltiplo, como o atual, e inventar para si uma ação mais perto do seu desejo. Aí está: o melhor antídoto para o vírus emburrecedor dos cetemques é o se arriscar a responder às indicações evasivas do seu desejo.

(artigo publicado no site Vida Boa;          link para o artigo nesse site)