Crianças, perdoai!

01/07/2008 00h00

Artigo publicado na revista WELCOME Congonhas, junho de 2008 - ano 2 - número 15

É com esforço que os pequenos abandonam as palavras que tocam o coração por aquelas que só comunicam

Crianças, perdoai-os, adultos não sabem o que fazem, nem o que dizem.
Você entra em um avião desejando uma viagem tranqüila, de sonho, ou de trabalho, de fones no ouvido para não ter que conversar; de assento na janela, para dormir; ou de corredor, para passear. Abre um bom livro, põe seus óculos escuros, e, pronto, está no paraíso, até se esquece por um segundo dos contratempos e desconfortos experimentados até ali. Tudo está bem.
De repente, o alerta, o drama anunciado. Na contramão da entrada dos passageiros, lá está a mãe prestimosa. Ela carrega o filhinho no colo balançando-o em ritmo acelerado, como se quisesse fazer uma prévia da tormenta que teme ocorrer. Não bastando, explica à sua cria que nada vai lhe fazer mal, que o avião é seguro, que as titias aeromoças são umas gracinhas, tatati, tatatá. Claro que sabemos o que passará: a criança vai começar a chorar e em seguida, se a mãe continuar seus cuidados, sem dúvida vomitará, com sorte no saquinho, quando não, no passageiro ao lado. E coitado daquele que disser a essa mãe que o filho está cumprindo ordens, que com ela aprendeu como o avião é perigoso, sacolejante e dispéptico. Impossível, logo ela, mãe tão dedicada, que larga tudo só para cuidar, só para se dedicar aos outros?
Crianças, perdoai-as, elas não sabem o que fazem.
Outro caso. Muito cedo uma criança descobre que o tíquete de entrada no mundo é trocar a sua linguagem íntima e afetiva pela língua de todo mundo.
Que não se diz “tostoso”, mas “gostoso”; que não é “áua”, mas “água”, que não se vai “dumi”, mas “dormir”. Com que esforço abandona o carinho daquelas palavras que tocam só o coração, por aquelas que só tocam a comunicação. Mas não tem jeito, há que se abandonar, mesmo que provisoriamente, esse linguajar que mais tarde vai reaparecer nos bilhetes dos amantes, nas ridículas cartas de amor, como insistiu Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, para participar da vasta comunidade humana. Aí, nesse momento de esforço soberano, que o pequeno ser se vira como pode para mimetizar a linguagem dos adultos, surpresa! Aquele mesmo adulto, muda a sua forma de falar e acha que ficará mais perto da criança se falar como ele pensa que a criança fala. O que ele não sabe é que a criança não acha que ela fala assim, pois as pessoas se escutam de modo diferente, coisa que um adulto deveria conhecer, bastando lembrar como é difícil perder o sotaque ao falar uma língua estrangeira, por uma razão elementar: não se ouve a outra língua como um nativo. Imagine se um aluno de inglês tivesse um professor que copiasse seu sotaque; quanto tempo suportaria? Ora, por que então tentar imitar os esforços lingüísticos de uma criança; para ficar mais perto? Ledo engano. Fazer isso só angustia o pequeno, da mesma forma que o adulto aluno de inglês.
Crianças, perdoai-os, eles não sabem o que dizem.

Jorge Forbes