De Repente, Um Tapa

01/07/2008 00h00

Artigo publicado na revista WELCOME Congonhas, julho de 2008 - ano 2 - número 16

Apaixonados, desconfiem de si mesmos.

Um tapa, quando viu, era tarde demais.
Luiza acompanhava a lição de sua filha, insistindo que o trabalho deveria ter desenhos coloridos, pois era o que estava escrito no caderno do colégio. Sofia retrucava que em classe a professora tinha mudado a orientação, que os desenhos podiam ser em branco e preto. Na disputa entre o que estava escrito e o que supostamente tinha sido dito, pláf!, um tapa na altura do pescoço. Pânico! A mãe olhava aterrorizada, se perguntando como podia ter batido na filha. Desculpas. A filha não sabia se chorava ou se fugia assustada. Mais que a dor física, uma coisa estranha, jamais vista, sem registro: um tapa.
Um analista, urgente! Freud deve saber como explicar e se desculpar com um filho assim agredido. Não existem desculpas, pois o tapa não é fruto de uma má intenção, de um erro de cálculo, nem mesmo do prosaico mau humor. Um tapa desse tipo, não intencional, foge à razão, ele é explosão afetiva que marca o impossível de toda relação. Nesse caso, o da mãe acompanhar a lição da filha; em um outro, o de Michelangelo, de enfrentar a mudez de seu Moisés: - “Fala! Por que você, estátua tão perfeita, não fala?”.
Que solidão do incompreensível sofrem os que se amam!
Temos que aprender a desconfiar de nós mesmos, o que seria muito melhor que essa febre perniciosa de auto-ajuda e de reforço de auto-estima. Desconfiemos, saibamos que em todos nós habita uma Luiza, ou um Michelangelo, conforme o talento, mas de semelhante princípio: todos, sim, todos podemos agredir quem gostamos muito, por querer que o amor não deixe brecha, nem mal-entendido. Melhor que desculpas, a responsabilidade. Melhor dizer às Sofias, errei, errei em ficar muito confiante de meu amor por você, que isso só te protegeria. Errei por não ter desconfiado de mim mesmo, de quanto me é difícil saber que o meu amor não é meu, que me ultrapassa, errei por me esquecer da angústia de Michelangelo, ao ver Moisés; um por do sol, uma cachoeira, um beijo: - Por que não falam?
Na época em que arremessar crianças pela janela sai da fantasia e entra na realidade, é necessária uma campanha de alerta: apaixonados desconfiem de si mesmos. Amar muito alguém não é garantia de segurança do amado. Luiza soube parar, soube desconfiar de si mesma, soube suportar o horror do seu tapa. Muitos, entretanto, prosseguem na agressão, não suportam a sua vergonha, ou não querem constatar que o amado existe apesar do amante. De um ato repentino, prosseguem em uma ação por vezes assassina. Chamar a isso de violenta emoção é disfarçar a covardia humana dessas pessoas. Que não venham querer convencer que foram tomadas por um sentimento incontrolável, que as levou a um assassinato involuntário. Todos nós conhecemos o que é um sentimento incontrolável, mas o descontrole nunca pode durar mais que o tempo de um tapa.

Jorge Forbes