A Dimensão Trágica da Experiência Analítica

02/01/1991 00h00

Jorge Forbes

Trágico x Drama

Ao falarmos em dimensão trágica da experiência analítica, é forçoso nos perguntarmos: existiria uma outra?

Arrisco uma resposta: sim. Penso que o que responde à dimensão trágica é uma dimensão dramática.

Qual é a diferença?

O personagem trágico está relacionado com uma lei acima dele, contra a qual nada pode.

Na tragédia a ação é o cumprimento do destino. Lacan chega a comentar sua habitual monotonia.

O drama por sua vez, é o abandono do “estava escrito desde o início”. Não há nele a dimensão trágica.

No drama o protagonista pode sempre resolver o problema e vencê-lo, enquanto que na tragédia o herói deve seguir o destino marcado.

E, mais perto da psicanálise, ainda diríamos que no drama o ‘eu’ sempre pode desalojar o ‘isso’. O ‘eu’ pode se transformar em mestre do seu destino. Essa seria uma concepção hegeliana da experiência analítica, talvez a de um primeiro Lacan; o diálogo levaria a um saber libertador. Não é assim.

Operacionalidade clínica

Apliquemos agora estas categorias assim definidas, em nossa práxis analítica.

Que tal pensarmos que uma análise vá do drama ao trágico? Como referência estabeleçamos que o drama ~e da ordem do possível e o trágico da ordem do impossível.

Se não, vejamos:

a) O Drama

Entendendo ‘Ética’ como a disciplina exigida para alcançar a felicidade, notamos, na dimensão dramática, a tentativa de alcançá-la por meio da discussão e da negociação.

A felicidade existe, o que se discute são os caminhos de acesso e, ao atingi-la, sua posse e manutenção.

Em termos freudianos, proponho situar o drama como herdeiro do recalque secundário. Sua estrutura é espetacular.

No drama a lei é conhecida. Ela está escrita e ao operar com ela, cumprindo-a ou burlando-a, é que se busca a vantagem feliz. A lei do drama é a da cidade, da pólis. O drama é da dimensão política.

Tomemos o cômico, um tipo de drama, como exemplo da busca da vantagem feliz. São formidáveis os tipos criados por Goldoni para ilustrar ‘eus’ que se confundem na dimensão imaginária. Há sempre o jogo de um ser tomado pelo outro e esforços para esclarecer mal-entendidos.

Lacan, é bom lembrar, se valeu do Anfitrião de Molière para exemplo de toda uma teoria egóica.

Se aqui, no cômico, falamos em “ego”, ao nuançá-lo chegamos ao humor e sua relação como o Superego. São os ingleses a evidência da imagem exemplar. Que melhor humor que o Humour? É a fineza daquilo que é fino o suficiente para escapar à fleugma, vestida de colete, da dura lei do Superego. O humor é o reino do jogo simbólico, dos atos falhos. É uma posição relativa à crueldade do superego moralista.

Se uma análise se inicia pelo drama. Não é de se espantar que o cômico e o humor possam ser ferramentas de manejo clínico no desalojamento alienante egóico ou superegóico. Seria interessante desenvolver as relações da histeria com o cômico e da obsessão com o humor.

Os primeiros tempos de uma análise vão demonstrar que a política, mesmo a da melhor vizinhança, não vai responder à questão da felicidade pretendida. É necessário ir além.

b) O Trágico

Esse é verdadeiramente o ponto do destino. Em várias acepções, aqui, no destino de toda uma análise.

Além da dimensão dramática, encontramos a dimensão trágica.

Ela não é da ordem do possível, da argumentação, do acordo. Ela é da ordem do impossível, no que esta palavra pode nos remeter ao sem saída, a uma obrigação de caminho.
Se o drama é herdeiro da alienação do recalque secundário, o trágico o é do recalque primário.

Na dimensão dramática da experiência analítica o diálogo em torno da felicidade se dá entre vivos. É uma esfera política, opera pelo convencimento, propõe futuros, cuidando do presente e revendo o passado.

Na dimensão trágica, diferentemente, o diálogo é de um vivo com um morto. O espaço trágico é o da conjunção da vida e da morte. Não há convencimento possível, a política cede lugar a uma Ética, na acepção analítica. Não se trata do passado mas do ‘antepassado’. Vai-se além dos limites de qualquer reconhecimento.

É hora, então de nos perguntarmos com Lacan:

...”Quais são as conseqüências éticas gerais que a relação com o inconsciente, tal como foi aberta por Freud, comporta?” 1

A psicanálise recupera a antiga questão que dizia que o destino do homem está marcado por algo além dele. O que Freud descobre é que este “além dele” o habita e não a morada dos deuses.

Por isso, na dimensão trágica da psicanálise, a marca da felicidade está além do bem comum. O desejo se quer autêntico e resiste ao conforme de todos. É este o campo ético: da articulação do autêntico com o conforme.

A que deve levar uma análise? Responde Lacan:

“o que o sujeito conquista na análise... é sua própria lei, da qual, se posso assim dizer, o sujeito apura o escrutínio”.2

Complicada e densa definição. E não menos tentadora...

Sua própria lei se antepõe à lei de todos e esse escrutínio, que o analisando faz, é a contagem dos votos que lhe destinaram.

Mas, na contagem desses votos, há um que seria o “voto mudo” ; não é declarado, nem é voto em branco. Definamo-lo assim: mudo. É como a morte, é um silêncio presente.

Talvez a melhor ilustração seja Antígona; como ela, todos nós temos um irmão morto apodrecendo em algum lugar. É o voto mudo, que decorre do jogo da humanização. Resta um morto, um silêncio presente, que exige ser sepultado. Em nosso termos poderíamos dizer que exige ser nomeado: qual o nome do morto?

Eis uma questão para toda a análise.

A condução ao trágico

Cabe ao analista realizar a condução ao trágico. À dimensão trágica. Lacan lhe dá o lugar do morte. Este não tem nome, faz-se repetidamente presente, pede para ser enterrado, exige nomeação.

O analista é o morto que aguarda, que pacientemente espera, o dia de ser nomeado. Ele tem horror do seu ato porque, para se chegar a nomear o morto, tem-se que ultrapassar duas paixões: o temor e a piedade.

Lembra Lacan que tais paixões são desconhecidas do herói em sua caminhada trágica ao saber e à realização de seu destino.

Temor e piedade são as propriedades do homem comum e o homem comum é como um outro homem, logo, seu plano de ação, como já dito, se exerce no campo do drama. Todo homem comum tem uma área de constrangimento. Esse é o limite que não quer ver ultrapassado e que também, por si mesmo, não ultrapassa. O homem comum é escravo da felicidade coletiva. Diríamos com Lacan: é um alienado da palavra vazia.

O analisando, apesar do temor e da piedade, tenta, na transferência, nomear esse morto. Mas, a morte, é o que se apresenta como impossível ao homem, e também ao analisando.

Lemos em Sófocles:

“Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas a maior é o Homem!... E a língua, o pensamento alado, e os costumes moralizados, tudo isso ele aprendeu! E também, a evitar as intempéries e os rigores da natureza! Fecundo em seus recursos, ele realiza sempre o ideal a que aspira! Só a Morte, ele não encontrará nunca um meio de evitar! Embora de muitas doenças, quanto as quais nada se podia fazer outrora, já se descobriu remédio eficaz para a cura”.3

Pois é, - “Só a Morte, ele não encontrará nunca um meio de evitar!” É o impossível ao homem.

Lacan não concorda com a tradução francesa da última oração.

“As traduções tentam dizer habitualmente que com as doenças ele ainda se ajeita, mas não é nada disso. Ele ainda não chegou à morte, mas encontra truques formidáveis, doenças que ele construiu. É, contudo, espantoso ver isso ser produzido em 441 AC como uma das dimensões essenciais do homem”.4

Conclui-se: pela presença absoluta da morte que relativiza qualquer plano de felicidade homeostático, o homem erige a doença como sua representante. Quando a conversa com o principal é impossível, tenta-se convencer o representante. Uma estratégia de transformar o impossível em possível. A doença, paradoxalmente, seria a possibilidade da felicidade.

Assim também faz um analisando. Ao se encontrar com o analista, o “analista-morto”, cria uma doença. Essa “doença”, muito particular, é chamada de “neurose de transferência”. Ela é da ordem do possível. Mas, não basta para uma ética decorrente da descoberta freudiana.

Além da transferência, depois do drama e no fim do trágico, o morto-analista exige um nome. Esse irmão morto que, repito, à semelhança de Antígona todos nós temos nas mesmas circunstâncias, exige um nome especial, que articule o autêntico e o conforme. Existe uma solução: o Nome Próprio. Enquanto Nome é conforme e enquanto Próprio é autêntico.

Aquele que faz o percurso de uma análise encontra o escrutínio de uma lei desejante no Nome Próprio. É nesse momento que o analista e o analisando, nomeados, podem se dizer, um ao outro, até logo.

Um derradeiro adendo

Somos sempre levados e tentados a pensar o trágico, dramaticamente. É uma tendência de imaginarizar a morte.

O caminho trágico é o atravessar de um limite. É um “ALEA JACTA EST”. A travessia de cada rubicão particular não depende de saber nadar bem ou mal. Não é da ordem do esforço físico, o limite é tênue, mas da postura ética. Para que a sorte seja lançada é necessário apostar e, aí, além dos limites das leis da cidade há que se confiar nos deuses. É o que quer dizer a palavra entusiasmo. “As leis do céu em questão são justamente as leis do desejo”,5 conclui Lacan em seu seminário da ética.

Se o drama é a alienação na palavra vazia, o trágico é a alienação na palavra verdadeira, aquela que funda um fato.

Creonte arrependeu-se, tarde demais, da conformidade absoluta ás leis da cidade. Antígona já estava em sua prisão subterrânea quando ele disse: “Agora, sim, eu creio que é bem melhor passar a vida obedecendo as leis que regem o mundo!”6 Foi muito tarde, ele já havia perdido o bom momento (bonheur), a feliz-cidade.

“ALEA JACTA EST” porta um sorriso na decisão da aposta. Ainda Sófocles:

“Quando os homens perdem a razão de ser de sua alegria, eu suponho que não vivem: são apenas cadáveres animados.”7

Ou, Millôr Fernandes:

“É possível levar a sério a seita dos que demitiram o sorriso do rosto?”

Assim chegamos ao fim da análise. Seu fim tem a estrutura do chiste.
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1 Lacan, J., O Seminário, Livro VII, A Ética da psicanálise, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988, p. 350.
2 Ibidem, p. 360.
3 Sófocles, Antígoa, tradução J.B. Mello e Souza, Rio de Janeiro, Ediouro, p.222.
4 (op.cit.). Lacan, J., “A Ética da Psicanálise” , p. 333.
5 Lacan, J., ob. Cit. P. 389.
6 Sófocles, ob. Cit. P. 268.
7 Id., ibid., p. 270.

(Este texto foi escrito para o II Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, em 1989. Ele substitui aqui a fala referente à conferência intitulada “A ética nos quatro discursos” de Jorge Forbes, apresentada no painel “ Ética;psicanálise e sua transmissão” , em setembro de 1994, organizado pela Secretaria do Forum da SPID, painel cuja gravação se apresentou parcialmente inaudível em relação a esta fala.)