Espetáculo

16/11/2011 21h28

Jorge Forbes

            Espetáculo é um termo caro à psicanálise. Remete a: “ver sobre uma cena”. A primeira idéia, a primeira expressão que nos ocorre é aquela consagrada por Freud: “uma outra cena” (ein anderer Schauplatz), por vezes usada como referência de inconsciente. Empregamos a expressão “outra cena” quando, por exemplo, o analisando muda as coordenadas de suas queixas desde um contexto local, para um outro lugar, em um outro tempo. Chega-se a preconizar tecnicamente a mudança da poltrona para o divã, nesse momento de passagem discursiva.

            Lacan se inicia na psicanálise também com um estudo sobre o espetáculo - podemos assim dizer - uma vez que seu trabalho inicial de 1936 sobre o Espelho discorre sobre o momento em que um bebê, ainda em estado de corpo fragmentado, precipita uma unidade imaginária corporal, a se ver completado no espelho, neste caso, metáfora daqueles que se ocupam dele, a começar por sua mãe.

            O estudo de Freud e o de Lacan coincidem e destacam algo fundamental da natureza humana, a saber: o ser humano se compreende ou se realiza, no sentido forte do termo, só quando é colocado em cena, no espetáculo, no confronto com o outro.

            A questão “espetáculo” ganha especial importância nos dias de hoje, que foram consagrados por Guy Debord sob o nome “A Sociedade do Espetáculo”, título de seu livro bem mais citado do que lido.

            Sim, vivemos na sociedade do espetáculo, passamos de uma sociedade industrial, no qual o laço social era vertical, para uma sociedade globalizada, da era da informação, no qual ele é horizontal. A primeira, a sociedade industrial, era uma sociedade padronizada em todos os seus níveis, do mais restrito ao mais amplo. Na família, o pai; no trabalho, o chefe; na sociedade civil, a pátria. As cenas eram fixas, com explicações prêt-à-porter, o que facilitou a importância e a extensão que tomou o “complexo de Édipo”, como uma chave geral explicativa. Se o espetáculo pertence ao registro do Imaginário, no sentido de Lacan, ele era ali submetido às leis compreensivas do registro Simbólico, superiores ao Imaginário, na época que precedeu a que vivemos. Antes, compreendíamos, dávamos um sentido ao espetáculo, o iluminávamos com o saber, como preconizaram os Iluministas. 

            Preocupados que estamos com “a ordem simbólica no século XXI não ser mais o que era” (título do Congresso de 2012, da Associação Mundial de Psicanálise – AMP) e com as decorrentes conseqüências nos tratamentos, cabe notar que o Imaginário em nossos dias se associa diretamente ao Real, sem necessidade da intermediação simbólica. Trocando em miúdos. Saímos de uma situação na qual a razão era prioritária, para um novo momento, no qual o ressoar toma a dianteira. Assim, os jovens contemporâneos não se perguntam entre si: - “Você me entendeu?”, como faziam os seus pais, mas, simplesmente: - “Você tá ligado?”. O que se tornou básico não é um intercâmbio de significado racional, presente no “entender”, mas uma epidemia (outro termo atual que merece nossa atenção, por descrever como se dão mudanças sociais atualmente), uma epidemia de sentido, tá ligado? Saímos do diálogo e estamos indos para os monólogos articulados.

            Nesse mundo de hoje, só duas opções: espetáculo ou genérico. Genérico é ser igual a todo mundo, na ordem unida, tal como as geladeiras: todas brancas e ninguém sabe a marca. Espetáculo é um problema. Requer dois movimentos fundamentais, que sintetizo na sigla cheia de futuro: IR. IR de Invenção e Responsabilidade. Sendo que vivemos um mundo despadronizado, no qual faltam referências ao homem que se vê desbussolado, no qual nem o Édipo sobrevive como chave universal, em vez de cada um se medir frente a um padrão, que não há – pois não há um, mas inúmeros - somos levados a inventar uma resposta singular e passá-la responsavelmente no mundo. Assim entendo quando em seu curso de 2010 (inédito), em Paris, Jacques-Alain Miller trabalha a dimensão do show, no passe. Segundo ele, o cartel do passe não teria nenhuma nota a tomar, a não ser se deixar impressionar pelo espetáculo daquele que se oferece a demonstrar a sua maneira de passagem do estritamente singular ao mundo.

            Essa forma de compreensão do espetáculo é coerente à segunda clínica de Lacan, nomeada de forma diversa, entre outras, de Clínica do Real. Se na primeira clínica a questão era atingir um saber sobre o véu do fantasma, demonstrando-o e atravessando-o, na segunda, própria aos tempos atuais, a questão não é a demonstração, mas a “monstração, como diria Lacan, mostrar a capacidade que se adquire em uma análise de não mais buscar a referência de sua identidade na dialética do espelho/expectativa do Outro, aquém ou além do fantasma, axioma das significações. Trata-se, na clínica do século XXI, de suportar o impacto e a surpresa, do que aparece como novo e equívoco, sem significado pré-estabelecido, no entanto estreitamente ligado ao sentido de um gozo ineliminável, marca de origem de cada um, que possibilita a flexibilidade necessária a quem queira ser um “homem pronto a todas as circunstâncias”, inventando e se responsabilizando por soluções singulares, na cena de uma vida.