Euforia Depressiva

01/01/2003 00h00

Jorge Forbes

As grandes revistas semanais de circulação nacional dedicam cada vez mais páginas à seção de comportamento. Antes, o xodó era a economia, agora é o comportamento. E tome remédio para tudo. A se fiar na propaganda, moças já podem fabricar o namorado ideal : potente, magro e bem humorado. Basta preparar um coquetel de Viagra, Xenical e Prozac. Repetem-se matérias sobre depressão, sobre o mal do fim do século, sobre a doença do próximo milênio, enfim, há uma euforia depressiva. Constata-se o seu aparecimento em todo lugar mas não se pergunta o porquê. Por que temos mais depressão ? Não, não é só porque agora podemos fazer melhores diagnósticos. Seria fácil demais nos restringirmos a esta explicação. Entendo ser mais convincente pensar que esses tempos são propícios à covardia moral. Para que arriscar tomar para si a incerteza de uma aposta quando, como dizia, para tudo parece ter remédio ? Depressão, nesse contexto, é o novo nome do velho medo, da insegurança, da dúvida... da dor de cotovelo, eternas doenças do homem.

Esta crítica não desmerece a efetiva contribuição dos novos medicamentos, quando bem administrados. O problema é a ideologia ignorante e parasitária que os acompanha. A posição dos psicanalistas está dividida quanto à colaboração terapêutica farmacológica. Uns pensam que Freud foi o primeiro biólogo da mente e que as neurociências vieram confirmar as hipóteses do fundador. Outros defendem que nenhuma objetivação do ser humano será capaz de apagar a responsabilidade subjetiva de cada um frente a seu desejo. A opção parece evidente e no entanto ainda há muita confusão neste pedaço. Na base está o engano de se pensar a representação do cérebro como sendo o próprio cérebro. Para a psicanálise não há como acabar com o mal entendido, não existe o homem natural. Como diria Drummond, tentar imitar o mundo, chamar-se Raimundo, pode ser uma boa rima mas não é uma solução.