O Homem Cordial e a Psicanálise

24/02/1998 00h00

Jorge Forbes

A imagem do brasileiro é a de uma pessoa naturalmente simpática, extrovertida, prestativa, que se interessa imediatamente pelo problema do outro; de riso fácil, andar molenga, de tendência pacífica; amante da música, do sol e da multidão. Ainda a sua mais completa definição é aquela consagrada por Sérgio Buarque de Holanda: o brasileiro é o “homem cordial”.

“A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, diz Buarque de Holanda, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, em que permaneceu ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal”(1). Resistem os brasileiros ao coercitivo da civilidade e “nenhum povo está mais distante dessa noção ritualista da vida do que o brasileiro. Nossa forma de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez”(2). O oposto ao homem cordial seria o homem polido, e a polidez é, conforme o autor, “organização de defesa ante a sociedade; ... equivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoções... é um triunfo do espírito sobre a vida. Armado dessa máscara, o indivíduo consegue manter sua supremacia ante o social... a polidez implica uma presença contínua e soberana do indivíduo”(3).
Lendo Raízes do Brasil, o clássico de Sérgio Buarque de Holanda, compreende-se a distinção entre “cordial” e “polido” como derivada e equivalente às diferenças do tipo aventureiro encontrado em Portugal, Espanha e Inglaterra, e o tipo trabalhador, estável, predominante no resto da Europa. Haveria uma incompreensão radical entre ambos, muito mais do que oposição evidente. O primeiro desses tipos tinha como característica o ir além das fronteiras, o visar horizontes distantes. O segundo privilegiava a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar.
Nos aventureiros, “cada um é filho de si mesmo, de seu esforço próprio, de suas virtudes...”(4). “À frouxidão da estrutura social, à falta de hierarquia organizada devem-se alguns dos episódios mais singulares da história das nações hispânicas, incluindo-se nelas Portugal e Brasil”(5). Não importam as tradições pois o que vale é mais “a eminência própria do que a herdada”(6).
Esses fatores contribuíram na criação do “homem cordial”. São características da cordialidade:
a) a intimidade: ah! como é difícil a um brasileiro se acostumar à sutileza da diferença do emprego do “tu” e do “vous” em francês e como lhe parece estranho, até mesmo caricato, a sucessão de meneios de cabeça dos japoneses. Verifica-se uma enorme dificuldade no respeito a um superior. “A manifestação normal de respeito em outros povos tem aqui sua réplica, em regra geral, no desejo de estabelecer intimidade”(7). É com facilidade que após quinze minutos de conversa dois brasileiros já “se contaram a vida toda”, como até mesmo se diz no jargão e, passada meia hora, se descobrem amigos de infância.
b) uso dos diminutivos: “no domínio da linguística esse modo de ser parece refletir-se em nosso pendor acentuado para o emprego dos diminutivos”(8), o que pode ocasionar frases tais como: - se eu me atrasar um pouquinho, você vai tomando um chopinho, com alguma comidinha ou então dá uma ligadinha... É a maneira de fazer tudo mais acessível, menor, próximo; uma vida que caiba na palma da mão; uma vidinha.
c) omissão do nome de família: quem foi criança no Brasil há de se lembrar seu pai perguntar: -”Mas esse seu amigo tem sobrenome? É José do quê?” e as crianças, sem entender, invariavelmente respondem: -”É José meu amigo, ponto.” E que dificuldade na hora de querer encontrar um telefone na lista. E quantas vezes nem o prenome se sabe, pois há trinta anos só se conhece o apelido. “Seria talvez plausível relacionar tal fato à sugestão de que o uso do simples prenome importa em abolir psicologicamente as barreiras determinadas pelo fato de existirem famílias diferentes e independentes umas das outras.”(9) Mais uma vez, para o aventureiro, não importa de onde se vem mas o que se é. Os estrangeiros acham estranho que no Brasil a ordem alfabética é a dos prenomes e, por sua vez, brasileiros ao serem chamados pelo nome de família não se sentem identificados, pois pode se tratar de um irmão, ou de um primo.
d) ética da emoção: qualquer forma de convívio há de ser ditado por uma “ética de fundo emotivo”(10); até mesmo concorrentes, antes de mais nada, têm a necessidade de ser amigos.
Nem mesmo os ritos religiosos e seus personagens escapam ao “horror às distâncias”(11) que parece constituir o traço mais específico do espírito brasileiro. Dizem que até a pompa do Vaticano, se no Brasil se instalasse, não resistiria à irreverência local e que em poucos dias o Papa teria um apelido camarada
“A uma religiosidade de superfície, menos atenta ao sentido íntimo das cerimônias do que ao colorido e à pompa exterior... ninguém pediria que se elevasse a produzir qualquer moral social poderosa”(12), é o que explica, conforme Buarque de Holanda, o fato da República brasileira ter sido obra de positivistas, ou agnósticos e a Independência, realizada por maçons.
Por essas características, já houve quem, no Brasil, pensasse que a psicanálise, para aí se implantar, deveria sofrer um processo de tropicalização , tornando-a mais ao gosto da terra; que o estender a mão, o divã, etc, eram coisas boas para os povos frios e polidos; “coisa de austríaco”. Não perceberam que é outra a geografia da psicanálise, que não é ela mais própria ao polido que ao cordial, nem vice-versa.
Sérgio Buarque de Holanda não faz apologia do “homem cordial”, não o coloca no melhor dos mundos. Ele previne que “a vida em sociedade - para o brasileiro - é de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente de viver consigo mesmo” e profere a máxima : - “Ele é antes um viver nos outros”, concluindo, citando Nietzsche : - “Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro” (13).
Esta tipologia de imaginário social, do “homem cordial” e do “homem polido”, pode ser comparada, a meu ver, com o intuito de uma crítica psicanalítica, àquela lembrada por Jacques Lacan, em seu seminário sobre a Transferência, quando se refere aos tipos altruísta e egoísta. Desconfiem do altruísta, ele alerta.
Não para preconizar o egoísmo, é claro, mas, se quanto a este não é necessário advertir o defeito, por ser evidente, o altruísta, em sua bondade, em sua piedade, no seu incansável querer bem ao outro pode aparecer como um virtuoso moral. “É que, de fato, o precioso Mitleid, o altruísmo, não passa da cobertura de uma outra coisa, e vocês vão observar isso sempre, sob a condição, todavia, de estarem no plano da análise”(14). Lacan exemplifica o altruísta através de um obsessivo que diz casar com a pobre garota - alusão a uma histérica - por piedade ou respeito, “ficando ambos aborrecidos por muito tempo”, porquanto, contrariamente ao que explica, “o que ele respeita, o que ele não quer tocar, na imagem do outro, é a sua própria imagem. Se a intatilidade, a intocabilidade dessa imagem não fosse cuidadosamente preservada, o que surgiria seria simplesmente a angústia”(15).
A pessoa que se concebe altruísta não se angustia em face de uma possível maldade que cometeria ao deixar a pobre garota. Uma, porque ela só é “pobre” e “garota” em sua imaginação, e a experiência é pródiga em mostrar a dureza das “pobres garotas”; e outra, mais fundamental, é que a sua angústia reside no confronto ao objeto do seu desejo, quando ultrapassa a queixa e a insatisfação cotidiana. O difícil é que em face do que se quer - quando se pode querer - surge o desamparo, o Hilflosigkeit freudiano, o estar só frente ao seu desejo. Uma pessoa está sempre acompanhada frente ao que não gosta, pois a reclamação é coletiva, daí os sindicatos. A opção desejante, por sua vez, é solitária; ela não se explica, se faz.

Há muito de altruísta no “homem cordial”, por isso nos permitirmos emparceirar Lacan e Buarque de Holanda. O psicanalista esclarece o que o historiador descreve como “o pavor de viver consigo mesmo”.
Esse pavor, podemos entender como oriundo da dificuldade para cada pessoa de sustentar o seu desejo, pois sendo este singular, não compartível, surge com facilidade a fantasia de exclusão, de ser abandonado pelo grupo, tribo, ou bando a que pertence; - “vão me matar...”, é um fantasma paradigmático.
Assim se expressa Lacan a respeito: “se a análise não conseguiu fazer com que os homens compreendessem que seus desejos, em primeiro lugar, não são a mesma coisa que suas necessidades, e, em segundo lugar, que o desejo apresenta em si mesmo um caráter perigoso, ameaçador para o indivíduo, que se esclarece pelo caráter evidentemente ameaçador que ele - o desejo - comporta para o bando; pergunto-me, então, para que a análise terá servido”(16).
Essa é então a nova forma de tratamento da angústia que a psicanálise propõe ao homem; levá-lo a sustentar o seu desejo, a não ceder no que deseja. Para atingir este ponto, é necessário atravessar o conforto das soluções coletivas, fantasmáticas; o fantasma é coletivizável, o sintoma é singular. Por isso é que o resíduo, o resto de uma análise é um sintoma, um saber fazer, um estilo singular.
Não pensemos que se nos ocupamos mais aqui com o cordial-altruísta, a vida seria mais fácil para o polido-egoísta, ou que este melhor suportaria o difícil de si mesmo. Ora, ao evitar o contacto com os outros, o homem polido perde a chance de descobrir que existem os outros. A sua solidão é falsa, pois vive no mundo dele mesmo, onde só o familiar, o “como lá em casa”, é valorizado.
Dizer também que a psicanálise se acomodaria melhor ao imaginário polido-europeu, por ser este mais adepto aos rituais de distância, de repetições dos encontros, das horas marcadas, seria tão falso quanto pensar que mais
adequada ela estaria ao imaginário cordial-brasileiro, porque com mais facilidade os brasileiros falam de sua intimidade.
A nenhum dos dois mundos pertence a psicanálise, daí dizermos que sua geografia é a de um campo, marcado por seu fundador, freudiano.
Inútil almejar que na terra do campo freudiano surja uma nova proposta de convívio melhor que a cordialidade e a polidez criticadas. Só podemos esperar que ao final de uma análise uma pessoa possa ter-se despojado de identificações imaginárias embaraçantes, estorvantes, e prove uma maneira peculiar de fazer passar na lógica deste mundo um quê de seu desejo, sem sufoco, mas sem por isso desprezar a cordialidade e a polidez.

Bibliografia

1. BUARQUE DE HOLANDA, S., Raízes do Brasil, José Olympio Ed., Rio de Janeiro, 24 ed., 1992, p.106
2. ________________________, p. 107.
3. ________________________, p. 107 e 108.
4. ________________________, p. 4.
5. ________________________ , p. 5.
6. ________________________, p. 9.
7. ________________________, p. 108.
8. ________________________, p. 108.
9. ________________________, p. 109.
10. _______________________, p. 109.
11. _______________________, p. 110.
12. _______________________, p. 111.
13. _______________________, p. 108.
14. LACAN, J., O Seminário - Livro 8 - A Transferência, texto estabelecido por
Jacques-Alain Miller, Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 1992,
p. 352 (No original: Le Transfert, Seuil, Paris, 1991, p. 423).
15. ________ , p. 352 (No original : p. 423).
16. ________ , p. 356 (No original : p. 428).