Jacques Lacan, o analista do futuro

12/12/2001 00h00

Jorge Forbes

É curioso falar de um analista do futuro quando nos acostumamos a pensar em psicanalistas do passado. A idéia que fazer análise seja remexer no velho baú da infância contribuiu para montarmos a caricatura do psicanalista semelhante à antiga imagem do guarda-livros, uma pessoa empoeirada e opaca.

Jacques Lacan, de quem celebramos o centenário de nascimento neste treze de abril, é muito diferente de qualquer modelo que possamos construir hollywoodianamente. Em vida, ele soube romper com todas as expectativas aprisionantes, após sua morte, sua obra continua surpreendendo por sua novidade. E como já não bastasse o já publicado, anuncia-se para breve o lançamento dos seus “Novos Escritos”, um volume de seiscentas páginas que vêm se adicionar às anteriores.

Lacan é um clássico, no sentido que chamamos de clássico aquilo que resiste ao tempo, por não se deixar apreender em qualquer interpretação classificatória. Sempre há mais Lacan do que aquilo que se pode apreender, da mesma maneira que há sempre mais Sófocles que qualquer representação de Édipo Rei, ou mais Shakespeare , ou mais Van Gogh, ou mais Drummond, ou mais Tarsila. Por isso essas pessoas não morrem, porque não há túmulo que as contenha, não há palavra que as explique. Se Foucault tinha razão ao dizer que a palavra é a morte da coisa, os clássicos são mais coisa que palavra, e por isso falamos deles sem esgotá-los.

Lacan evitou que a psicanálise se transformasse em método tolo de adaptação social, armadilha a qual, infelizmente, alguns pós-freudianos não conseguiram escapar. Ele pôs o futuro na psicanálise : demonstrou que qualquer tentativa de explicação de si mesmo acaba, inevitavelmente, em um ponto duro, real, resistente – como em física fala-se em resistência dos materiais – a qualquer nomeação, semelhante ao “que será que será que nunca tem nome nem nunca terá”, cantado por Chico e Milton.

Na impossibilidade de se garantir através de uma explicação causalista e reducionista do seu passado, o analisando é levado, na orientação lacaniana, a inventar um futuro para si próprio, sem nenhuma outra razão além daquela do seu desejo, posição nem sempre muito confortável, apesar de entusiasmante, pois trata-se de uma invenção sem garantia repartida, sem o beneplácito da aceitação grupal, seja de que grupo for. Atenção : que não se pense ou se confunda esta invenção do futuro, na lógica do desejo, com qualquer individualismo barato ou hedonismo de ocasião.

A análise lacaniana parece a mais coerente com as conseqüências da globalização sobre as pessoas, com o sujeito pós-moderno. Vivemos um momento de transição histórica do sujeito da era industrial para o da era da globalização. O sujeito industrial se caracterizou pelo privilégio do eixo vertical das identificações. É o que explica a organização piramidal da sociedade industrial, presente na família e nas corporações dessa época. Para entender esse sujeito, a estrutura do complexo de Édipo proposta por Freud mostrou toda a sua importância. O complexo de Édipo também é uma estrutura que privilegia o eixo vertical das identificações, haja visto o papel fundamental que o pai tem nesse modelo. Agora, quando entramos na globalização, quando o sujeito não mais se dedica a ser parte de um grande ideal – não há mais grandes ideais – quando a horizontalidade é mais importante que a verticalidade anterior, Lacan propõe que uma análise possa ser conduzida além do Édipo, além das significações consagradas no ideal paterno e de seus representantes. É a análise do futuro, de um sujeito de uma nova era. Estamos começando a desbravar esse caminho, seguindo as pistas deixadas por Lacan.

Três expressões eu poria em relevo, do seu legado : “conseqüência”, “responsabilidade” e “novo amor”.

Conseqüência porque contrariamente ao que possa parecer, palavras não são só palavras, não há nada a ser buscado além delas, e sim nelas, como os poetas que renovam o termo mais banal dando-lhe uma nova dimensão. O analista empresta conseqüência às palavras do analisando.

Responsabilidade, não no sentido moral, mas no sentido ético. Lacan diferencia moral – usos e costumes – de ética, posição subjetiva. A psicanálise lacaniana ensina que não há como não se responsabilizar pelo acaso e pela surpresa. A pessoa não é só o que escolhe, voluntariamente livre, mas também o que lhe ocorre : “eu sou o meu acontecimento”.

Novo Amor. A psicanálise, dizia Lacan, não foi capaz de inventar um novo pecado, uma nova perversão; talvez, fica a pergunta, seja capaz de inventar um novo amor que não seja voltado ao pai em última instância, mas que, sabendo dele se servir, possa ir além do chamado, em psicanálise, gozo fálico e captar algo do real feminino. Tanto a globalização, quanto a psicanálise de hoje, revelam que entramos em um novo momento, mais propício à essência feminina. Muito da epidemia depressiva de nossos dias fica esclarecida pela desorientação ocasionada pela perda da orientação masculina.

Lacan previu estes acontecimentos e deixou os instrumentos para tratá-los : um analista do futuro.

(Publicado em O Estado de São Paulo e em Opção Lacaniana: revista brasileira internacional de psicanálise. n.32, de dez.2001, p.52-53 São Paulo:Eolia).