Opção Brasil

19/10/2009 18h48

Jorge Forbes

Artigo publicado no “O Estado de São Paulo”, em 3 de abril de 1992.

Há algo de podre no afeto dos brasileiros. Cada vez mais aumenta a vergonha de dizer de onde somos. É como se tivéssemos de justificar a obra do acaso que nos fez nascer aqui ou que nos leva a permanecer neste país.

Estamos perdendo a estima pelo outro, a confiança no parceiro, o gosto da alteridade. Se andarmos na calçada e alguém nos bater no ombro para pedir uma informação - as horas, por exemplo - somos capazes de dar um salto para o lado, ou gritar por socorro. Vivemos o medo do outro, nos mais prosaicos hábitos diários. Do ponto de vista da participação social maior, temos de reconhecer o absoluto descrédito que nos invade; um “não adianta” que se dissemina.

Esse Brasil tem jeito? “Sim, ele tem jeito porque eu quero!”, respondeu Caetano Veloso, em recente entrevista. Alguns vão entender nessa resposta um ato de voluntarismo ingênuo: ora, ora, porque ele quer... Mas não, entendamos do poeta a proposta de uma radical intransitividade. “O Brasil tem jeito porque eu quero” não se explica por esta ou aquela razão, por isto ou aquilo, é um “eu quero e pronto”. É um querer que guarda um tanto de aposta à la Descartes, que um dia, já avançado em seu método, concluiu em aforismo célebre: “Penso, logo existo”. O Brasil tem jeito porque eu quero. Afinal, nada se constrói sem um ato inicial de puro amor, sem outro suporte a não ser um querer sem maior razão.

Sem isso, a leitura dos comentaristas diários da situação nacional é enlouquecedora. Abrimos os jornais e buscamos avidamente a boa razão que conforte nossa brasilidade sofrida. Lemos um importante crítico econômico e compramos seu peixe; concordamos com a descrição que faz do quadro nacional. No dia seguinte, repetimos a experiência, agora com outro articulista, avesso ao primeiro, e, para nosso espanto, também concordamos com este outro. Aí começamos a desconfiar que algo está errado. Por mais ignorantes que possamos ser, percebemos que estamos facilmente concordando com teses contrárias. Se ontem achávamos que o formidável era abrirmos as importações para favorecer o livre mercado, com a conseqüente sobrevivência dos competentes, como é que hoje aplaudimos os defensores das idéias opostas, que apontam os perigos do sucateamento das indústrias e do desemprego em massa?

Claro, a solução de nossa baixa estima não está em transformar cada brasileiro num multiespecialista da salvação nacional. Insisto: há algo além da razão que sustenta uma sociedade. Ainda bem!

Notemos os malefícios deste desapego pelo social que nos abate. Ao abandonarmos a busca da realização contando com o sócio, crescem, em contrapartida, os métodos que aliviam cada pessoa da necessidade do parceiro, e que são de duas espécies: místicos ou individualistas. No primeiro você está sozinho com “deus” que o protege. No segundo, o “deus” é substituído por um “eu mesmo” enaltecido.

Do lado místico, vemos nossa literatura ser invadida por magos; a astrologia e congêneres ganharem progressiva importância; seitas se multiplicarem a cada esquina. Do lado individualista pululam os “faça você mesmo”, “como ser feliz em 24 horas”, “você pode ser o máximo”, etc. As duas vertentes têm em comum o fato de se aproveitarem do desconsolo social para venderem a idéia do homem só com seu destino, ou do homem só com sua vontade, ambas, uma calamidade para qualquer projeto de nação.

O que fazer? Como devolver ao brasileiro o gosto pelo outro? Nesta empreitada, se a tentarmos, temos de nos preparar para um complicador: ridicularizamos hoje em dia tudo o que diga respeito à Pátria, até mesmo a palavra. Um dos desfavores do tempo da ditadura foi nos legar uma triste herança em que todos os termos ligados ao País ficaram conotados de nacionalismo, militarismo e ignorância. Nada de mais para um francês se indignar com um McDonald’s em plena Avenida Champs-Elysées, para um espanhol se enaltecer “de la movida” por que passam, ou para um americano vibrar com suas tropas de recente História. E nós, do que nos orgulhamos? Se dissermos que gostamos do Brasil, logo vem a musiquinha nefasta: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo...” Se admiramos alguém, aparece a censura brechtiana: “Pobre do país que precisa de heróis”. Se simplesmente dizemos “sou brasileiro”, surgirá quem diga que isso não é moderno, ou que o tema da identidade é matéria integralista. Temos de convir que assim não dá!

Dei como título a este artigo Opção Brasil. Alguns nele vão reconhecer o nome de um movimento lançado no segundo semestre do ano passado, em São Paulo, por um grupo de pessoas preocupadas com este nosso mal-estar. Quando escolhemos dizer Opção Brasil é porque sabemos que neste ato há um imponderável, aquém ou além de qualquer razão. O Brasil não é uma razão, é uma opção. As explicações são importantes, mas não bastam. Não se convence ninguém a ser brasileiro, o que precisamos é encontrar um canto, semelhante ao do poeta, para cada um: “Sim, o Brasil tem jeito porque eu quero, e ponto.”