Para onde caminha a psicanálise?

01/01/1995 00h00

Jorge Forbes

Para onde caminha a psicanálise? Mais uma vez ouvimos a pergunta. De tempos em tempos, suficientes para a descoberta de um remédio ou a aparição de um credo mais potente, lá aparecem os arautos da morte de Freud: “Freud está morto?” pergunta a Time em sua capa. Será que o divã, tão longo, caro e penoso vai resistir à tropa forte e ligeira dos antidepressivos? E quantas outras curas se querem esses Garcias Marquez autores das crônicas de uma morte anunciada, porém muito, muito improvável?

Penso que a psicanálise vai muito bem. Certo, ainda jovem, ela tem algo a percorrer para garantir um lugar estável entre os saberes do homem. Mas ela já deu o que falar - no que, aliás, baseia seu tratamento -, e não são poucas suas parcerias com as ciências. Superficialmente, podemos lembrar que com a biologia, a psicanálise discute a pulsão e o instinto. Com a lógica, os critérios de conclusão e verdade. Com a física, o tempo, o movimento, a mudança. Com a história, a memória e o fato. Com a filosofia, a ética e o sujeito. Com a medicina, os conceitos de cura, sadio e normal. E com a religião, as noções de pai e culpa.

Enfim, a psicanálise tem estado presente em uma ampla gama de preocupações do homem. Ela trata do fato de o homem ser obrigado a passar pela palavra o que quer, o que ama, o que odeia, o que espera e, a partir daí, ver-se confrontado aos mal-entendidos cotidianos. Desejo é o nome quase naif do que há de singular em cada pessoa. Não existe um “bom para todo mundo” ao ver de Freud e, por isso, a psicanálise se oferece a cada um que queira se fazer responsável pelo particular do seu desejo, fora das acomodações patológicas das neuroses, perversões e psicoses. A psicanálise trata de algo bem pontual - o desejo. Apenas isso. Nada mais. E quanto!

Mas será que os remédios não resolverão, finalmente, o mal estar do homem? Não. Os remédios resolverão os mal-estares das doenças a que se dirigem, mas não o mal-estar de viver. Temos de estar atentos à sombra que se cria a cada luz projetada, pois se o saber renova-se e avança, também o não saber progride. Não é difícil entender que hoje não sei coisas que ontem não sabia que não sabia. Esse é o campo da psicanálise, o do não-saber, do inconsciente.

A psicanálise preocupa-se, atualmente, com ao menos quatro campos fundamentais. Na clínica, destacam-se os avanços do tratamento das psicoses e os esclarecimentos dos critérios de final de análise.

Na formação dos analistas, onde normalmente se verificam as cisões, duas grandes concepções divergentes, uma defendida pela Associação Psicanalítica Internacional (API), kleiniana, outra pela Associação Mundial de Psicanálise (AMP), lacaniana, sustentam o debate.

Lacan rompeu com a API em 1953, por entender que nela a formação do analista respondia mais às exigências da universidade do que à especificidade própria à psicanálise. Também diferenças conceituais como a noção de inconsciente acabam levando a diferenças clínicas importantes. Citaria como terceiro campo os novos fatos gerados pelas ciências. Por exemplo: quem é o pai do bebê de proveta? O que pensar da eutanásia e de sua exibição na TV?

O quarto campo seria o da cultura e política. Se estamos habituados a ver a presença da psicanálise na literatura, no teatro e no cinema, não devemos esquecer que em matérias que lhe são aparentemente estranhas como a economia, um vocabulário “psicanalês” é usado para falar de uma inflação louca, derivada de um capitalismo perverso... Na política, a teoria freudiana e, em especial, a teoria dos quatro discursos de Lacan ajudam a compreender a diferença entre falas presidenciais que propõem soluções mágicas e outras baseadas na razão, que defendem a “paixão do possível”.

Para onde caminha então a psicanálise? Ela prossegue, como diria Freud, no tratamento da “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, no passo do mundo e com vasta agenda.