Por um aggiornamento

12/12/1996 00h00

Jorge Forbes

I

Ser analista é uma opção ou é uma necessidade? Dizendo que é uma opção, deduzo a existência de um modelo, de um ideal, que permite a expressão da vontade, do querer ser analista. Dizendo ser uma necessidade, refiro-me a algo que se impõe, a uma causa que é assumida.
Rilke respondeu ao jovem poeta que lhe perguntava se era ou não um escritor, de uma maneira que pode valer ao analista: - “Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: - Sou mesmo forçado a escrever? Escave, dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples – sou – então construa sua vida de acordo com esta necessidade”1.
Ser analista, nesta referência, é uma necessidade. E, como ao escritor, por ser uma causa e não um ideal, implica a construção de sua possibilidade.
O tema que me propuseram foi: “Por um aggiornamento”. Aggiornamento é a palavra consagrada por João XXIII, na convocação, em 25 de janeiro de 1959, de um Concílio ecumênico que viria a chamar-se Vaticano II.
O objetivo era o de renovar, de elevar a Igreja Católica ao nível do mundo moderno2; fazer o aggiornamento do código de Direito Canônico3 . Foi neste Concílio, que durou de 1962 a 1965, entrando no papado de Paulo VI – uma vez que João XXIII morreu em 1963 – que inúmeras reformas foram concretizadas, sendo as mais conhecidas: a não obrigatoriedade do latim como língua oficial nas cerimônias, a possibilidade de celebração de cultos ecumênicos e a admissão dos casamentos mistos.
Tal como a Igreja, a psicanálise não mantém uma relação natural com o mundo, devendo, com certa freqüência, medir os seus passos, verificar a sua inclusão e exclusão na civilização, recolocar-se na ordem do dia, agendar-se para manter a juventude da causa.
Uma vez que a psicanálise estabelece uma relação de fronteira com a civilização, e uma fronteira conflitiva, dois são os principais riscos em que pode incorrer: ser englobada ou excluída do mundo. A psicanálise é englobada quando perde sua virulência, quando se transforma em uma prática adaptativa à sociedade, quando seu objetivo de cura passa a ser o mesmo da medicina, em uma palavra: quando admite a padronização e a estatística. A psicanálise é excluída quando seu consumo é autofágico, ou seja, tal como uma corrente da felicidade ou venda de produtos tipo Amway, o consumidor de hoje é o vendedor de amanhã. Também é excluída quando seus membros adotam uma linguagem incompreensível com o objetivo de mútuo reconhecimento, quando se sectarizam no conforto dos iguais.

II

Para discutir a renovação da psicanálise há um problema de princípio. Retornando a João XXIII, ainda no período da convocação do Concílio, em 16 de abril de 1959, ele se dirigia aos franciscanos dizendo que era preciso: “determinar e distinguir o que constitui princípio sagrado e Evangelho eterno e o que não passa de volubilidade dos tempos”4 . Pois bem, “mutatis mutandis”, continuando a comparação: é preciso determinar e distinguir o que se constitui como os elementos fundamentais da psicanálise os quais, se alterados, a degradariam, transformando-a em alguma outra coisa, e o que não passa de “volubilidade dos tempos”, necessário renovar. É um bom tema para um congresso: “O necessário e o contingente da psicanálise”.
Listei a partir de inquietações, minhas e dos colegas, através de comunicações escritas e orais, alguns pontos que parecem merecer atenção para um aggiornamento, por exemplo:

a) Entre pessoas que encontramos no meio psicanalítico, em uma amostragem grande como num simpósio, quantas delas vivem, mantém uma casa, pagam seu lazer, com o que ganham em seus consultórios? Ou, variante desta questão, quanto tempo é necessário para uma pessoa atingir um nível profissional que cubra o investimento de sua formação? Outra, ainda, por que aparentemente há mais psicanalistas mulheres que homens?
b) Será que todos os pacientes de um analista estão em análise? E os que não estão, o que fazem, psicoterapia? Que motivos justificam esses tratamentos?
c) Queixa-se muito do progressivo esquecimento, deturpação ou ataque da psicanálise pela mídia, em confronto ao engrandecimento da respeitada tecnologia científica, os psicotrópicos, por exemplo, ou das religiões, dos pastores televisivos, e também dos filósofos. Tem sido notável, em relação a estes últimos o recrudescimento do interesse por suas falas e artigos. Dos cafés às estantes há um reaparecimento da filosofia. E o psicanalista?
d) Várias questões atuais aguardam a participação dos analistas, tais como: quem é o pai do bebê de proveta? Depressão é o mal do fim deste século? A violência, o suicídio, e os crimes hediondos se espalham, contradizendo o anunciado progresso social. Não seria indicativo que não basta responder à demanda? Cresce a taxa do chamado fracasso escolar. As crianças apresentam verdadeiras anorexias de saber. Difunde-se a explicação: “distúrbio de atenção por desordem hiperativa”. Tratamento: calmantes. Será? Expandem-se as indústrias, cresce o desemprego, o homem é obsoleto? As discussões em torno à eutanásia se avolumam. Qual a liberdade de se definir a hora da morte? E a troca de sexos, entre outras questões da cirurgia plástica? Para não falar dos inúmeros problemas de reprodução humana em laboratório, dos “clones”, etc, etc. Como pode o analista participar deste debate mantendo sua especificidade, não se confundindo com o sociólogo, o antropólogo, o político, enfim, com os cientistas sociais? Freud um dia perguntou “Por que a guerra?”; falou do “futuro de uma ilusão” e de como estamos “mal na civilização”. Lacan discutiu a aletosfera, previu o reaparecimento do racismo, questionou a rebeldia de 68. E os analistas de hoje, como se interessam pela “psicopatologia da vida cotidiana”?
e) Em política o tema é a globalização. Não há mais bandeiras de luta, não há mais mocinhos e bandidos; caem as barreiras do comércio, do idioma, da moeda. Anuncia-se o fim da história. Os governantes de põem uma pergunta, que é sugestiva aos analistas: como governar sem bandeira e quando um trilhão de dólares são transacionados diariamente sem uma direção conhecida, sem controle? Quem governa? Pensou-se também que a presença indiscriminada do computador fosse desencadear um perda da subjetividade por processos maciços de identificação; qual o quê, a imensa disponibilidade de informação exige a escolha, reclama o sujeito. Começa-se mesmo a inferir que estamos às vésperas de um renascimento das artes, da história. E a psicanálise?
f) Finalmente: há um cansaço na psicanálise?

III

Ao analista tudo, menos a depressão; que pior fim de análise poderia ocorrer que o desalento, a desistência, a opacidade do humor, do amor e do gosto? É bastante conhecida a proposta de Lacan que o final de análise se associa ao entusiasmo. Não ao entusiasmo pueril da vida cor de rosa, da proteção cínica dos obsessivos, da bela indiferença cética das histéricas, mas ao entusiasmo, tal como ele citava, daqueles que mantém “uma relação verídica com o real”.5 Esta relação verídica com o real pode ser o nosso princípio sagrado – para continuar no clima de João.
Sabemos, e quanto, depois de percorrer longas distâncias sobre um divã, que o real sempre escapa às palavras que lhe oferecemos para respondê-lo, ele pede sempre mais, “encore”. E o analista, espera-se, poderá suportar esse a mais da civilização, além da palavra, que para muitos dá mal-estar, dá depressão.
Vejamos o que se passa no terreno da saúde. Às vésperas do ano 2000, jornalistas procuram frases bombásticas de comemoração; uma delas que recentemente li, era: “no ano 2000 a depressão será a doença mais disseminada, ultrapassando as doenças cardíacas”.
Falam da depressão como da AIDS ou da vaca louca: um novo vírus ou bactéria, de alto contágio e sem tratamento definitivo.
De onde vem tanta depressão? Será que só agora estaríamos sofrendo do metabolismo da serotonina, como explicam os psiquiatras biológicos? Ora, a serotonina não é um fato novo, por que culpá-la? É mais fácil pensar que o homem comprou o projeto de modernidade com um projeto de felicidade. Sonhava que o dia em que pudesse se locomover rapidamente, se comunicar sem limites, quando não houvesse mais guerras ideológicas, então o mundo seria feliz. Pois bem, o avião, a multimídia, a suposta paz, e tantos outros bens da civilização foram conquistados neste século, mas a felicidade não foi entregue junto. Só há duas saídas: ou retificar a esperança da felicidade, ou chamar de doença a sua não obtenção. O primeiro caso cabe ao analista, o segundo tem cabido ao psiquiatra.
Escrevem-se e divulgam-se hoje em dia manuais populares sobre a depressão, para explicar ao paciente que ele não é responsável pelo seu mal-estar, que o que sente é uma doença, “como qualquer outra”, para a qual indica-se o remédio adequado e uma terapia suportiva associada, freqüentemente a cognitiva. Todo mundo está feliz: o paciente, que fica sabendo que não tem nada a ver com isso, o psiquiatra, que prescreve a solução e o mundo, que mantém intocável seu projeto de harmonia e igualdade. Na base do raciocínio psiquiátrico-biológico encontramos uma relação fantasiosa ao real, a saber, o sonho da bi-univocidade droga-emoção. Tal droga, tal emoção, tal emoção, tal droga. Seria o vocabulário perfeito, sem equívocos, sem mal-entendidos. Enfim o homem codificado, do tamanho do alfabeto.
A continuar por aí a psiquiatria tende a desaparecer, a ser integrada à neurologia, mais competente em vocação e conhecimento dos circuitos neurológicos e podemos aguardar debates no futuro, não entre psicanálise e psiquiatria, mas entre psicanálise e neurologia, onde, paradoxalmente para alguns, seria a psicanálise a herdeira da fineza da clínica psiquiátrica clássica.
Claro que há depressão mas não se ganha nada em irresponsabilizar o paciente por seu sintoma. A se buscar uma relação verídica com o real é mais coerente entendê-la, com Lacan, como uma “covardia moral”.6 É a única forma de não renunciar ao pacto com a palavra. Não desprezamos a utilização co-adjuvante dos psicofármacos, mas estamos longe de indicá-los pelas razões paradisíacas que são propagandeadas.
Sim, ao analista tudo, menos a depressão. Como o artista, o poeta, o ator, o escritor, e todos os praticantes do incompleto, também o analista aprende a conviver com o excesso e neste concerto das práticas sociais que se ocupam do desejo, sua posição é de vértice, de fonte, onde as outras se referem em suas realizações: no filme, no artigo, no conto, na canção. A psicanálise está em muitos lugares; é bom que esteja também entre os analistas, se puderem se “aggiornar” na construção de sua possibilidade, não ficando deprimidos por ter que mudar suas velhas opiniões, na volubilidade dos tempos.
Lembro de Raul Seixas: “Eu prefiro ser só metamorfose ambulante do que aquela velha opinião formada sobre tudo... antes”. Metamorfose ambulante.

IV

Conclusão. O título desta reflexão: “Por um aggiornamento”, me foi sugerido por Jacques-Alain Miller. Agradeço e lembro de sua preocupação atual como o “affectio societatis”7, um imponderável que associa os analistas.
Restringi-me a revolver a terra onde plantamos a psicanálise e a examinar o seu contexto. Caberá à comunidade do campo, à AMP, orientar a agenda, o aggiornamento, não para uma solução geral, pois a psicanálise não tem jeito, mas para manter jovens as questões que nos causam.
E, lembrando o que disse ao início com Rilke, que ser psicanalista é necessário, acrescentaria, com Freud: necessário e impossível.

Texto apresentado no IX Encontro Internacional do Campo Freudiano, Buenos Aires, julho de 1996.
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1 RILKE, M., Cartas a um jovem poeta, São Paulo, Globo, 17a. ed., 1989, p.22.
2 ALBERIGO G., História do Concílio Vaticano II, São Paulo, Vozes, 1966, p. 85.
3 ALBERIGO G., ibid, p.33
4 ALBERIGO G., ibid, p. 23.
5 LACAN J.,. “A psiquiatria inglesa e a guerra”, A querela dos diagnósticos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989, p.11.
6 LACAN J., Télevision, paris, Seuil, 1974, p.39.
7 MILLER, J.-A., “Affectio societatis”, Correio da Escola Brasileira de Psicanálise, no. 11, São Paulo, 1995, p.12