O Preço de um Presente

10/12/2008 02h00

Jorge Forbes

Artigo publicado na revista WELCOME Congonhas, dezembro de 2008 - ano 2 - número 21

Que espécie de presente seria aquele que não nos lamentamos no momento de dá-lo? Essa é uma pergunta que Sigmund Freud se fez em um pequeno artigo escrito em 1935, intitulado: As sutilezas de um Ato Falho.

Freud deixa entender a existência, para ele, de ao menos dois presentes: aquele que se dá sem dó, e aquele que nos custa uma tristeza disfarçada no sorriso, no momento da entrega. Curiosamente, a maioria das pessoas não concordaria com Freud, pois pensa, ao contrário dele, no enorme prazer de presentear altruisticamente as pessoas próximas. De como é bom dar, pois é dando que se recebe, blá, blá, blá.

Analisemos a diferença entre as duas atitudes. Dar um presente a alguém com pena, mesmo quando disfarçada, quer dizer que você está dando o que lhe falta; enquanto que dar um presente que você imagina faltar ao outro, indica que é ao outro que algo faltava, e que, agora, após o seu presente, vocês dois podem festejar o fato de que a ninguém falta mais nada, além de algum dinheiro na sua carteira. É o que se acredita baseado no pensamento fraterno difundido na expressão, tão valorizada moralmente, de amar ao próximo como a si mesmo, exemplificada em mensagens do gênero: “Tinha comprado isso para mim, imaginei que você também iria adorar”.

Estranho é pensar na proposta de Freud que a base de um presente maior é o egoísmo, em vez do seu contrário. Egoísmo de saber que se está dando o que lhe falta, e não os seus dotes. Seria assim o amor, dar o que lhe falta a alguém que não lhe pediu isso? Amar seria dar o que não se tem, como escreveu Platão em seu Banquete, e foi retomado, insistentemente, por Lacan? Pode ser estranho, mas é por demais humano.

Podemos nos perguntar se as duas formas de falar de um afeto, em português: “Se dar com” e “Se dar a”, não recobrem as diferenças destes dois presentes.
Não é a mesma coisa dizer: “Eu me dou com a Maria” e “Eu me dou a Maria”.

Na primeira maneira, temos uma declaração afetiva; na segunda, uma declaração sensual. Na expressão: “Dar-se com”, normalmente está subentendida a palavra “bem”: “Dar-se bem com”. Ao subtrairmos o “com”, é algo de si mesmo que passa a ser dado, logo, quem dá, nesse caso, perde. É o que justifica alguém declarar que está perdidamente amando.

Teríamos, então, dois tipos de presentes: afetivo ou sensual. No afetivo, repartimos a mesma identificação, o mesmo bem; é o presente harmônico, tranqüilo. No sensual, repartimos nossas diferenças, o que nos falta; é o presente inquieto e insinuante. Um e outro não são comprados com a mesma moeda, e nem se trocam na mesma loja.

Enfim, a cada um desembrulhar o seu presente favorito.
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São Paulo, 10 de dezembro de 2008.