Provocações Psicanalíticas I - As Possibilidades da Psicanálise

02/07/2005 00h00

  • A Psicanálise do Século XXI não é mais a mesma Psicanálise do Século XX concebida por Freud: passamos do Homem traumatizado ao Homem desbussolado.
  • Quando Freud criou a Psicanálise, ele o fez em uma sociedade que estabelecia padrões claros e rígidos de comportamento. Se uma pessoa não conseguisse atingir o objetivo esperado, é porque tinha algum problema que ficara mal resolvido no percurso de sua vida. A psicanálise era o tratamento do passado e a cura, se conhecer melhor.
  • Freud propôs um modelo para a estruturação psíquica que ficou muito conhecido: o “Complexo de Édipo”. Esse modelo é baseado na orientação vertical das identidades, é pai-orientado.
  • A psicopatologia analítica da clínica Freudiana foi estabelecida a partir do modelo edípico. É de uma simplicidade genial: quem negocia com o “pai” para chegar a uma satisfação possível é o neurótico; quem despreza o “pai”, ocupando seu lugar, fazendo uma versão do “pai”, é o perverso; finalmente, quem não consegue estabelecer uma articulação paterna é o psicótico.
  • O “Complexo de Édipo” pode ser entendido como um software que Freud inventou para conectar o homem ao mundo. Este software, muito mais estável que os atuais de Bill Gates, funcionou por 100 anos, convenceu-nos que o mundo era mesmo edípico.
  • Realizamos, no momento, uma análise além do Édipo. Na sociedade globalizada, a estruturação dos laços sociais não se dá da mesma forma que anteriormente. Surgem novas soluções e novos problemas.
  • Temos uma série de novos sintomas, próprios da horizontalidade do laço social da globalização, que não respondem ao tratamento Standard da Psicanálise do século passado. Alguns exemplos: fracasso escolar, agressões inusitadas, toxicofilias, anorexia, bulimia, a epidemia de depressão, etc.
  • Esses novos sintomas não respondem ao tratamento pela decifração, típico da psicanálise do mundo moderno, consagrado no alerta da esfinge: “Decifra-me ou te devoro”, da época em que o analista emprestava sentido - “A interpretação precisa ser presta para prestar ao entrepréstimo” (Lacan - em Televisão). Passamos à época em que o analista empresta conseqüência. A clínica é uma ética e não uma moral.
  • É da época do deciframento e do complexo de Édipo a psicopatologia tripartide: neurose, psicose, perversão; a chamada primeira clínica de Lacan. A coerência obriga a questionar essas identidades psicopatológicas em uma clínica descentrada de um padrão único, de um uni-verso do pai. Como já dito, a clínica é ética, não uma moral de hábitos. Do universo do pai, próprio ao mundo industrial, fomos à globalização, onde os pais se multiplicam, o que levou Lacan a falar, em seus últimos seminários, em nomes do pai, no plural e não mais no singular.
  • Da mesma forma que é de pouca valia a insistência de transmissão da psicanálise como se as estruturas clínicas fossem quadros estanques, índices em todos os mundos possíveis (Kripke), é conforto ilusório seguir dividindo a psicanálise em dentro e fora do consultório, o que responde a uma configuração cartesiana de espaço e de tempo, mas não a uma topologia dos nós, a uma topologia borromeana.
  • Se no Século XX falava-se que a Psicanálise era o tratamento do passado, hoje, devemos dizer que ela é o tratamento do futuro. Antes, uma pessoa procurava um analista com a idéia clara do que queria obter, relatando as dificuldades em fazêlo. Hoje, uma pessoa procura um analista por não saber o que fazer, frente à multiplicidade de escolhas possíveis.
  • É enganoso pensar que uma pessoa deva fazer uma análise para se 'conhecer melhor'. Isto existiu na sociedade passada. A questão, nos dias de hoje, é muito mais o limite do saber, que o seu aprofundamento. Sendo que todo conhecimento necessário para uma escolha ou para uma tomada de decisão é incompleto, a questão fica sendo de reconhecer o limite e poder suportar a aposta necessária provocada por esse saber incompleto. Não existe decisão sem risco.
  • Pensar que existe um saber inconsciente, que um dia vai surgir, contribuiu a uma certa irresponsabilidade, resumida na expressão “só se foi inconsciente”: “Não me lembro, não quis fazer isso... só se foi inconsciente”.
  • O analisando é levado a responsabilizar-se pelo encontro e pelo acaso. Essa responsabilidade é inversa à responsabilidade dita jurídica. Na jurídica, primeiro se é livre, depois responsável. Por exemplo: é necessário que o carro esteja perfeito para que o seu motorista, em suas ações, possa ser incriminado dolosamente. Na psicanálise, ao avesso, primeiro há que se fazer responsável - Você Quer O Que Deseja? - em seguida, pode-se falar em liberdade.
  • É o motivo do analista diminuir o suposto tempo da sessão, para, exatamente, favorecer ao analisando conclusões precipitadas, no sentido da química: conclusões que associam uma dose de razão com uma dose de aposta, de afeto.
  • A Psicanálise de hoje ultrapassa o interesse da clínica exclusiva do consultório. Ela também se preocupa com as variadas manifestações do laço social: na política, na família, nas empresas, na escola, na sociedade em geral.
  • Na política, vemos uma tensão entre personagens que funcionam no eixo da impotência à potência, como George Bush, e outros que funcionam no eixo da impotência ao impossível (a entender logicamente), como tenta Luiz Inácio Lula da Silva.
  • Nas famílias, não se trata tanto de se esperar compreensão entre pais e filhos, mas, ao contrário, de diferenciar explicação de compreensão. Muitas coisas na vida têm explicação, mas não por isso são compreensíveis. Há um silêncio necessário arbitrariedade do signo lingüístico - Saussure - e não derivado de uma mãe ou pai bravos, ditos 'castradores'.
  • As empresas, as instituições em geral, inclusive as escolas de psicanálise, praticamente todas elas, as que perdurarem, terão que passar pelo filtro da globalização. Isso implicará uma mudança muito grande, na qual poucos setores ficarão intocados. Mudarão os valores, o organograma, a forma de trabalhar, as parcerias, as fusões, a permanência, os talentos serão prioritários, etc. É um trabalho que está só começando.
  • Na educação, depois da época do acumular conteúdo, seguida do tempo da interdisciplinaridade, chega o momento de aprender a desaprender. Como diria Alberto Caeiro: “O essencial é saber ver,/ Saber ver sem estar a pensar,/ Saber ver quando se vê,/ E nem pensar quando se vê/ Nem ver quando se pensa./ Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),/ Isso exige um estudo profundo,/ Uma aprendizagem de desaprender” (O que nós vemos, de O guardador de rebanhos).
  • Na sociedade em geral, nota-se um movimento reacionário que tenta tratar os novos sintomas com velhas soluções. O garantido é o velho. Há que se detectar soluções emergentes da própria sociedade, de novas formas de laço social. Ousemos chamar de 'monólogos articulados' mais de um milhão de pessoas dançando juntas em uma 'tecno parade'. Notemos o crescimento dos esportes radicais que são uma forma de encontrar novos pontos de referência ao limite e à morte.
  • A Psicanálise do Século XXI e o psicanalista de hoje devem poder tratar de fenômenos como a euforia do luxo, as agressões inusitadas, a hiper-transparência, os diários pessoais, a doença da saúde perfeita, a ideologia que assegura que para tudo tem remédio. É por essas estações que passa o bonde do sofrimento contemporâneo.
  • “Eu constatei - afirmava Jacques Lacan, em 16 de dezembro de 1975 - que se três nós forem conservados livres entre si, um nó triplo, representando em uma plena aplicação de sua textura, ex-siste, que é bem e belo o quarto. Ele se chama o sintoma”. E Lacan complementa semanas após: “Eu penso que o psicanalista só pode se conceber como um sintoma. O psicanalista é um sintoma, não a psicanálise”.
  • O psicanalista como sintoma é necessário para duas ações fundamentais: a invenção de uma solução singular ao furo no Real, exigida a cada um, e a responsabilidade de sua transmissão no mundo - atenção: muito diferente de transmitir 'ao mundo' - exigência complementar e solidária que se faz também a cada um.


Jorge Forbes
São Paulo, 2 de julho de 2005.

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