Psicanálise: A Escolha Necessária

01/01/1987 00h00

Jorge Forbes

“E o ser do homem, não somente não pode ser compreendido sem a loucura, como não seria o ser do homem, se não trouxesse em si a loucura, como o limite de sua liberdade”.

(Jacques Lacan: Propos sur la causalité Psychique, in “Écrits”, Paris, Seuil, 66, p. 176).

Quem pode entrar em análise? Quem pode fazer uma análise? Quem pode concluir uma análise?

- Aquele que pode escolher, ou melhor, aquele que pode suportar a necessidade da escolha. Essa resposta equivale à fórmula: Faz análise quem quer.

Em seu tempo de plantonista de hospital psiquiátrico, Lacan tinha pregado na parede a frase lapidar: “Não fica louco quem quer” (1). Há a maneira ingênua de compreender essa frase - para ficar louco não basta querer -, mas também podemos compreender nela que o “querer” é disjunto da loucura; que o querer é próprio e necessário à estrutura neurótica e que é impossível na estrutura psicótica.

Por que dizer “Não há clínica sem ética?” Por isso, porque não se exerce a clínica psicanalítica com aquele a quem não é dado querer, que não possa suportar a escolha. Só havendo escolha de posição é que se põe alguém em análise.

Não estamos falando do querer em seu sentido volitivo, de assumir, de querer isso ou aquilo. A referência aqui é à uma escolha que, embora esteja marcada desde o início de uma análise, se verifica ao seu fim – optar ou na pela permanência em um lugar onde se foi primordialmente desejado. É uma opção de absoluto particular, sem qualquer norma ou comparação, uma opção diferente.

É uma opção diferente no que não se compara à nenhuma outra; ela é criacionista, portanto. “A perspectiva criacionista é a única que permite entrever a possibilidade da eliminação radical de Deus. É, paradoxalmente, somente na perspectiva criacionista que se pode fazer frente à eliminação da noção sempre renascente da intenção criadora como suportada por uma pessoa”. (2)

A ética da psicanálise se distingue das éticas que lhe são anteriores por não ter como objetivo a enunciação de valores sobre as pessoas.

A ética da psicanálise é relativa ao discurso, ao discurso do analista, que não o é de uma pessoa, mas o verdadeiro “setting” da análise. Um discurso que não tem a ver com o belo dizer, mas com o já celebrado em Lacan; o ‘bem dizer’, no sentido da provocação da palavra que passa a ter o estatuto de fundar um fato, ação que se faz sobre o Real; na base, o nada, em decorrência: criacionista.

Voltando um pouco sobre o dito até aqui, não se pode por em análise aquele que não possa fazer escolha de uma posição – não há clínicos sem ética.

A ética tem a ver com a escolha a que o sujeito é levado em uma análise.

“A experiência moral de que se trata na análise é também aquela que se resume no imperativo original proposto por algo que se poderia chamar aqui de ascese freudiana – esta Wo Es war, Soll Ich werden, à qual Freud chegou na segunda parte de seus Vorlesurgen sobre a psicanálise. A raiz disso nos é dada através de uma experiência que mercê a designação de experiência moral e que se situa no princípio mesmo da entrada do paciente na psicanálise.

Este eu, com efeito, que deve advir ali onde isso era, e que a análise nos ensina a medir, não é outra coisa senão aquilo de que já possuímos a raiz neste eu que se interroga sobre aquilo que quer. Ele não é apenas interrogado, mas, quando avança em sua experiência, essa pergunta ele a coloca para is próprio, e precisamente no lugar dos imperativos, freqüentemente estranhos, paradoxais, cruéis, que lhe são propostos por sua experiência mórbida” (3).

Lembremos que, nesse só pomos em análise quem quer, existem ao menos dois riscos de má compreensão: a) não se trata de questionar se aquele que vem ao analista é adulto ou criança, se veio sozinho ou trazido, se diz que deseja fazer uma análise ou uma terapia, se vai pagar por si mesmo ou se alguém pagará; essas e outras semelhantes talvez até sejam questões circunstanciais, mas não o são de cerne analítico e, b) se já foi dito que aquele que quer não é psicótico, não invalida que esse seja recebido por um analista, mas altera a direção do tratamento.

Verificamos pela citação de Lacan, que acabamos de transcrever, que o eu que chega a uma análise é um eu que se interroga sobre o que ele quer.

Esse é o primeiro movimento de entrada em análise: a transformação de uma queixa em uma questão.

Quem procura uma análise normalmente traz uma queixa e esta tem a qualidade da circunstância. “Eu estou mal porque... minha mulher me abandonou... perdi muito dinheiro... um parente próximo morreu, etc. “O analista é visto como aquele que, por ser “técnico”, melhor saberá readministrar a vida, frente à perda desequilibradora.

Embora o sujeito, se neurótico, duvida do seu julgamento, esta faculdade não lhe está abolida – e isso é fundamental.

A entrada em análise vai fazer a ultrapassagem, do limite da circunstância, para uma outra cena, com o peso da história.

É geralmente nesses momentos que podemos situar uma frase quase padrão: “eu era feliz até que...” Da verificação desse momento anterior onde desejo e felicidade eram conjuntos é que se sai da circunstância queixosa e se abre a questão sobre o que se é e o que se quer.

Severino já mora em São Paulo há muito tempo, desde que se formou em engenharia, na Bahia, seu estado natal, há 36 anos. Queixa-se de eu sua firma de cálculos de estruturas de concreto vai sempre em altos e baixos.

Tudo começou quando, após um início dificultoso, mas progressivamente firme e bem sucedido, entendeu que já era grande o suficiente para ter um sócio. A partir daí, vários se sucederam, em concomitância aos altos e baixos relatados.

O andamento das entrevistas preliminares lhe evidenciou uma clareza cegante: todos os sócios que havia tido eram membros de sua família, sempre mais jovens do que ele, aos quais a sociedade era oferecida gratuitamente.

Foi assim que, de uma queixa contextual, passou a uma questão sobre sua posição: “quem sou eu aí?” De um caso qualquer se fez um caso clínico e assim prosseguiu.

Passaram-se várias sessões, nas quais poderíamos dizer que o que ocorreu foram extenuações de respostas imaginárias às interpretações feitas pelo analista, as quais resumiríamos com Miller em ‘?!’ – “É essa a técnica, relativa à ética do analista, pois não se trata simplesmente aqui de fazer vacilar entre o exclamativo e o interrogativo, mas deixar exatamente indeciso, indeciso diante de uma afirmativa – nada além de um vazio. No fundo, esse ‘?!’ poderia ser o emblema da ética” (4).

Um dia, após uma sessão, sonha que estava na fazenda de sua tia, onde fora criado, e que incursionava, mato adentro, abrindo picadas e tendo seu pai como guia.

“Assim volta a manifestar-se nessas fantasias a supervalorização (“do pai“) que caracteriza os primeiros anos da criança. O estudo dos sonhos nos fornece uma contribuição interessante ao assunto” (5).

Sessão seguinte, ao relatar o sonho, diz se lembrar de algo que se passara com ele quando tinha mais ou menos treze anos. Concluído o primário e por falta de escola nas proximidades, tinha ido morar em Salvador, para cursar o ginasial. Lá, maravilhava-se com os hábitos e costumes da cidade grande e, nos estudos, tinha mais interesse pela matemática.

Foi nesse momento que retornou à fazenda para passar as férias e reencontrar a família. Na noite mesma da chegada, após os duros afazeres diários da roça, seu pai resolve atrasar a hora do sono para que o filho lhe contasse o que de mais interessante estava aprendendo na capital.

Foi um choque. Resolveu explicar ao pai as maravilhas das equações do primeiro grau que tanto o fascinavam. Seu pai, porém, nada entendia daqueles números e símbolos complicados e os melhores esforços didáticos do pequeno Severino foram em vão. Neste momento, ao relatar isso em sessão, Severino chora e fica muito emocionado. “Como é que aquele menino podia fazer o pai passar por um momento de tão grande ignorância?” A ordem, a hierarquia, estava totalmente errada. Afinal, com os elementares conhecimentos das quatro operações aritméticas, aquele pai, como todo esforço e dedicação, é que lhe provia a vida na capital e os estudos avançados.

A partir daí, com o dizer feito fato nessa cena, é que Severino soube que sua vida e, em especial, sua profissão, eram dedicadas as uma correção hierárquica. Tinha sócios, pessoas da família, sempre mais jovens, com idade para serem seus filhos, que o representavam, e ele, por sua vez, o sócio mais velho, especialista em matemáticas avançadas, necessárias ao cálculo de estruturas, era o pai.

Assim, Severino ficou sabendo que eu era ele, o pai, o que radicalmente o questionou: “quem é eu?”.

Foi daí que se desencadeou o fim da análise, esse eu, foi até onde isso era e verificando que ali era vazio, a mais íntima estranheza, o êxtimo, optou: foi-lhe necessária a escolha, com a especificidade do particular que, se dito, é sempre outra coisa,

Concluo:

1. Muito se diz que sobre a clínica psicanalítica nada se pode dizer, é uma questão que se resolve no “ir vendo junto o que acontece”. Os que professam essa opinião se baseiam numa dita inefabilidade do inconsciente, e pensam que daí decorre que o “eu te amo” e o “eu te compreendo” e a “boa receptividade” do analista são os elementos curativos. Abrem-se as portas a um humanismo canhestro que tem por fim a identificação a um bem ideal, representada, humildemente, pelo analista.

2. O termo ‘ética’ era estranho à psicanálise até que Lacan dedicasse a ele um ano do seu ensino, demonstrando que ignorá-lo seria deixar os analistas na posição do burguês fidalgo que fazia prosa sem sabê-lo; é melhor, portanto, precisar que a Ética da psicanálise, a decorrente da descoberta freudiana, se antepõe à tradição aristotélica. Se ali havia um bem soberano a ser atingido, aqui se derroga essa possibilidade pela própria conceituação do sujeito dividido, cujo bem está além do prazer, marcado pelo mal-estar na civilização; o que se alcança é, nesse além, inventar um saber, explicado na frase: “a psicanálise pe o tratamento do Real pelo Simbólico” (6).

3. O ensino de Lacan nos propicia categorias para pensar e orientar a clínica, as quais permitem definir os momentos em que ela se desenvolve.

Foi objetivo deste trabalho realçar um em especial: que a necessidade de escolha é fundamental ao sujeito.

É a escolha, o querer, que marca eticamente uma análise, de seu começo ao seu fim.

Importante é percorrermos a evolução da escolha no desenvolvimento da análise e em seu cálculo, quando:

a) no seu início, serve como função diagnóstica entre neurose e psicose – “Não fica psicótico quem quer” – ao que acrescentaríamos: se colocado em análise, se questionado o ponto do querer psicótico, o resultado será o delírio. “O fato de que uma análise possa desencadear, desde seus primeiros momentos, uma psicose, é bem conhecido, mas nunca explicou porque. É, evidentemente, função das disposições do sujeito, mas, também, de um desejo imprudente da relação de objeto” (7).

b) No decorrer do tratamento é necessária a diferenciação entre o querer impotente e o querer impossível.
O querer impotente é nomeável e expresso habitualmente de forma acusativa e referencial; o querer impossível é próprio da estrutura, da demonstração do Real que volta sempre ao mesmo lugar. Isso, aliás, é o que nos favorece expor um caso clínico cujo momento principal e datado aos 13 anos. Se o Real volta sempre ao mesmo lugar, não é a antiguidade história que tem força reveladora. Tradição não é velhice.
No momento do relato da cena referenciada aos treze anos, penso que podemos notar em Severino, concomitantemente, o querer impotente, cuja referência é o pai “se eu quiser, ele será ignorante”, e o querer impossível, ao qual leva a equação sobre o ‘eu’: “se eu é ele, quem é eu?” e que terá por conseqüência: “que eu quer?”.

c) no final da análise se termina uma escolha necessária e criadora, por ser da ordem do impossível. Ali, onde isso era, o eu advém com a expressão de um querer. É o levar o saber à expressão de uma verdade, sabidamente não toda.

4. Análise é uma escolha necessária frente ao impossível, ao impossível da relação sexual.
É criacionista.
Análise é para quem quer.
__________________________

BIBLIOFRAFIA


1. LACAN, J. - Le Séminaire, livre III, Les Psychoses, Paris, Seuil, 1981, p.24; e, igualmente, em Propos sur la causalité Psychique, in Écrits, Paris, Seuil, 1966, p.176.

2. LACAN, J. - Le Séminaire, livre VII, L’Éthique de la Psychanalyse, Paris, Seuil, 1986, p.254.

3. LACAN, J. - (op. Cit.) L’Éthique…, p. 15.

4. MILLER, J-A.- Pas de clinique sans éthique, in Actes de l’École de La Cause Freudienne, nº 5, Paris, 1985.

5. FREUD, S. - Romances Familiares, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. IX, Rio, Imago, 1969, p. 246.

6. LACAN, J. - Le Séminaire, livre XI, Les Quatre Concepts Fondamentaux de la Psychanalyse, Paris, Seuil, 1973, p.11.
7. LACAN, J. (op. Cit.) Les Psychoses, p.24.

(texto de 1987)