Que líder queremos?

28/02/2015 20h55

Jorge Forbes

  

Eleições. Só se fala disso. Vou falar também, mas um pouquinho diferente. Não vou falar de pessoas, nem de partidos, nem de minhas preferências. Nem vou tentar convencer ninguém (muito) a ir por um caminho que me pareça melhor. O que eu gostaria de chamar a atenção é que uma eleição escolhe líderes e que esses – os líderes – no tempo atual pós-moderno, não tem nada a ver com o líder do tempo moderno, que nos é anterior.

Pensem nas suas casas. Alguém ainda conhece uma família que jante impreterivelmente às 19h30, que o pai se sente de terno e cara circunspecta à cabeceira, que os filhos se distribuam na mesma ordem, que a conversa seja pautada por importâncias comedidas da vida de cada um? Difícil, não é? O mesmo modelo, mutatis mutandis, vale para o professor, na escola; e também vale para o chefe, na empresa, ou na política.

Não se é líder hoje em dia com a roupagem do passado. Não existe mais a liderança vertical, de cima para baixo, em um eterno dar notas de aprovação, ou de reprovação. Por mais que o modelo “gerentão” ainda possa seduzir, ele é velho, é tosco. Na pós-modernidade o líder é o apaixonado que inspira, mais que controla; que entusiasma, mais que disciplina.

Não se é líder hoje em dia só por se saber ler gráficos. Números são importantes, mas não emocionam. Havia uma época em que a razão deveria ser asséptica, sem cheiro de humanidade. A época onde as pessoas se escondiam atrás de uma aparente objetividade pseudocientífica. Ficava-se repetindo: -“Os números mostram que...”, como se os números falassem por si, quando nem mesmo as rosas o fazem, Cartola dixit. Mais atual é a razão sensível, mistura de lógica com emoção, onde esta, a emoção, completa responsavelmente os furos da outra, a lógica.

Não se é líder hoje em dia se apresentando como diretor de costumes, de certos e de errados, se fazendo de moralista de plantão, religioso ou pagão. Há que se diferenciar moral de ética. Moral, como o estabelecimento de um bom para todos; ética como a responsabilidade frente ao singular de cada um. O mundo pós-moderno é das singularidades, das diferenças que pedem para ser articuladas e não tolhidas.

Não se é líder hoje em dia quem conclama as certezas e evita as ambiguidades. Quem prefere comunicar, em vez de envolver. Quem precisa ser importante, quando a questão é ter estilo. Quem recua na prudência, ao invés de apostar na inovação. Quem patrocina – de longe - a cultura, quando deveria ser um editor de cultura.

Não se é líder hoje em dia vivendo na saudade das comunicações uni direcionadas, quando o fundamental é o compartilhamento em rede.

Essa lista não é exaustiva, ela continua. Esbocei diferenças do líder da pós-modernidade em comparação ao da modernidade. Espero que esses aspectos ajudem a compreender o momento atual e, em decorrência, escolhermos o líder que queremos.

 

(artigo publicado na revista IstoÉ GENTE - outubro de 2014)