Um Significante Novo, o Real e a Mulher* (inclui o comentário de “O Homem da Areia”)

01/05/1996 00h00

Jorge Forbes

“Nossos significantes são sempre recebidos.
Por que não inventar um significante novo?
Um significante, por exemplo, que não teria, como o real, nenhuma espécie de sentido?”
(Jacques Lacan)

UM BURACO NORMANDO

Começo com Freud, à página 291 no texto “O Estranho”, volume XVII da edição brasileira. Em uma nota de rodapé, ele diz: “A verdade psicológica da situação, em que o jovem, fixado no pai pelo seu complexo de castração, torna-se incapaz de amar uma mulher, é amplamente provada por numerosas análises de pacientes cuja história, embora menos fantástica, dificilmente é menos trágica que a do estudante Nataniel”.

A questão para Freud é sobre a possibilidade de se amar uma mulher. Poderíamos reformulá-la falando na possibilidade de se ousar uma mulher, no sentido de se apoderar, ter uma mulher, fazer uma mulher objeto de seu gozo. É uma questão que Lacan colocava, tal como vemos nos caps. XI e XII do Seminário VIII, “A Transferência”: aqueles que se amam, amam-se enquanto sujeitos ou enquanto objetos? Ama-se um objeto e não um sujeito – é a resposta. Em decorrência, qual a possibilidade de um homem ousar uma mulher? Qual a possibilidade de uma mulher ser objeto de gozo para um homem?

Para a retomada deste Seminário, “A Causa do Desejo”, destaco a frase de Freud, justapondo-a à frase de Lacan em epígrafe: “Nossos significantes são sempre recebidos. Por que não inventar um significante novo? Um significante, por exemplo, que não teria, como o real, nenhuma espécie de sentido?” Esta frase, retirada da lição em “Direção a um Significante Novo”, de 15 de maio de 1977, faz parte do Seminário XXIV, “L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre” - em francês por tratar-se de um jogo de palavras sem tradução. Ao lado do significante novo e do real, poderíamos acrescentar um terceiro termo: a mulher. O significante novo, o real e a mulher não têm sentido – questão trabalhada por Lacan alguns anos antes.

Perguntar qual a possibilidade de ousar uma mulher seria semelhante a perguntar qual a possibilidade de se conviver com um significante novo, ou ainda, a possibilidade de ousar o real?

O seminário de hoje seria o que se chama em francês um trou normand – um buraco normando, referente à Normandia, região noroeste da França de onde vêm os queijos, os leites, etc. Trou normand é uma experiência gastronômica. Na Normandia há o calvados, uma bebida de maçã servida entre os pratos principais de um jantar. Toma-se um cálice pequeno de álcool, criando um buraco, um trou, para depois passar ao segundo prato. Um pouco como o efeito da laranja na nossa feijoada que, dizem, torna-a mais leve.

Faremos esse buraco, essa interlocução entre Freud e Lacan. Quando se retorna após uma interrupção, o que fica mais interessante é o próprio buraco, imaginando que quando se liga, se conecta de novo, liga-se de forma diferente e podem-se ver as coordenadas que passam pelo mesmo buraco. Daí a importância de duas ou três sessões de análise no mesmo dia, ao invés de uma longa sessão.

Nesse sentido poderíamos dizer que o que fica de uma análise são trous normands.

O HOMEM DA AREIA

É um conto fantástico escrito por Hoffmann em 1815 – um autor bastante curioso, que Fernando Sabino apresenta, na Edição Rocco brasileira: “nem todos os admiradores do escritor, entre os quais me incluo, sabem que as iniciais antes do nome pelo qual ele se tornaria universalmente conhecido significam Ernest Theodor Wilhelm”. Hoffmann trocou o Wilhelm de seu nome por Amadeus, em homenagem a Wolfang Amadeus Mozart. Vocês poderão ler a bela introdução de Fernando Sabino a Hoffmann.

Em “O Homem de Areia”, temos um personagem principal, personagem da nota de Freud – um homem que não ousa uma mulher. Esse homem, proibido a uma mulher, chama-se Natanael. Os outros personagens: seu pai, um amigo, Sigmund, dois irmãos adotivos, Clara e Lothar, órfãos que foram recebidos em família e cuidados pela mãe e Coppelius, amigo do pai.

. . . . . COPPELIUS . -- . PAI . -- . MÃE . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . NATANAEL . -- . CLARA . -- . LOTHAR . .

Numa outra cena, num segundo momento da vida de Natanael, temos Olímpia, sua namoradinha; Spalanzani, o pai de Olímpia. Olímpia tem pai... mas não tem mãe. O pai tem um amigo que se chama Coppola, que tem relação com o nascimento de Olímpia.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . SPALANZANI . . -- . . COPPOLA . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . NATANAEL . . -- . . OLÍMPIA . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Não se sabe quem é o narrador do conto, apenas que é amigo de Natanael. Na primeira parte ele relata as três cartas enviadas, e depois comenta o que se passou na vida de Natanael.

A primeira carta é de Natanael, que está estudando em G, para seu irmão Lothar, contando sobre uma experiência que acabou de ter: está em seu quarto de estudante e batem à porta; ao abri-la, assusta-se com o homem que vê, que acha horroroso, um vendedor de barômetros, - de certa forma um vendedor do tempo. Ao ver esse homem, expulsa-o com tal rapidez que o homem praticamente rola pelas escadas. Ele se assusta com seu próprio susto.

Normalmente as pessoas se perguntam sobre a causa do seu próprio susto: o que foi que eu vi que me assustou, uma vez que tudo que vi não me assustaria? Essa é a pergunta fundamental para nossa reflexão hoje.

Ele escreve para Lothar explicando o que ele viu e o assustou. Parte de uma lembrança infantil, e começa a descrever sua casa, uma casa de pai, mãe e filhos, onde tinham como hábito, depois do jantar que acontecia impreterivelmente às 7 horas da noite, ficarem em torno do pai que fumava seu cachimbo, e que de vez em quando falava certas coisas até as 9 horas da noite, quando as crianças eram postas na cama. Por quê? Porque o Homem da Areia ia chegar...

É interessante, mas Freud não interpreta que as crianças são postas para dormir porque eles, os pais, querem ir para a cama. Ele não ousa a metáfora mais imediata sobre o porquê os pais colocarem os filhos na cama. Põem os filhos na cama e os cegam para que os filhos não escutem e não vejam.

Natanael estava inquieto para saber quem era esse Homem da Areia que o expulsava do convívio familiar fazendo-o ir dormir mais cedo, e pergunta à mãe. A mãe explica-lhe que o Homem da Areia é um homenzinho que passa jogando areia nos olhos da criança, e que quando ele começa a sentir aquela areinha nos olhos significa que está na hora de ir dormir. Ele não fica muito satisfeito com a explicação e vai perguntar à babá que, como toda boa babá, foi feita para contar histórias terríveis para as crianças. Ela lhe explica quem é o Homem da Areia: “pois é, meu pequeno Natanael, então você não sabe?” “Você não sabe”, é uma expressão terrível... – “É um homem mau que vem procurar as crianças que não querem ir para a cama. Joga punhados de areia em seus olhos, que tombam ensangüentados, e então os apanha e enfia em uma bolsa, carrega-os para a lua, a fim de alimentar seus netinhos. Eles estão lá empoleirados no ninho, com os bicos recurvados como o da coruja. E bicam os olhos das crianças que não são boazinhas”. Quem teve babá, mãe, tia, avó, não ouviu coisa melhor.

Há toda uma discussão no texto de Freud para saber se a realidade cura susto ou pânico - como querem agora os defensores do TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Se remédio cura pânico, cura susto... Mas a resposta de Freud é que esse susto não se cura, a não ser em análise, ou se sintomatiza, por exemplo, a quem não ousa uma mulher.

Natanael explica como fez a prova da realidade, esgueirando-se pela porta entreaberta, na ponta dos pés, situação que Hoffmann descreve com graça.

Ele entrou no escritório para saber da visita que o pai recebia às 9 horas da noite, e viu, finalmente, a chegada do famoso Homem da Areia. Coppelius é o Homem da Areia e Natanael, quando o vê, pensa não ser ele tão aterrorizador: Coppelius é um chato que vem de vez em quando jantar com o papai e com a mamãe e fica dizendo que os filhos são pequenas bestas. Mas daí a sentir pânico desse cara... Começa a olhar o que o pai e Coppelius fazem.

O autor não deixa claro se Natanael sonha ou delira, mas o fato é que eles começam a fazer uma experiência alquímica com tenazes, chumbo, vela derretida, e Natanael se assusta, cai de trás da cortina, onde estava escondido, aparecendo em cena aberta. Coppelius o pega para arrancar-lhe os olhos, jogar neles o chumbo derretido e dar continuidade a sua experiência.

É onde Freud interpreta que a areia reaparece como chumbo derretido. Nesse momento, o pai interfere Não, não, por favor, meu filho não, não vamos usar os olhos do meu filho. Ele é salvo pela intermediação do pai e essa cena termina com ele acordando, a mãe ao seu lado.


Passa-se um ano, reaparece o Homem da Areia, entra no escritório do pai, provocando uma imensa explosão. O pai de Natanael morre. É o que ele conta nessa primeira carta a Lothar, lida por Clara.

Na segunda carta, Clara lhe responde dizendo que aquilo são construções de sua cabeça, que ele não deveria ficar preso a isto e, enfim, ela explica-lhe a teoria do fantasma, dizendo: há uma força obscura que, deveras traiçoeira e hostil, tece em nosso íntimo fios com os quais nos domina, nos conduz por caminhos perigosos e nefastos que jamais teríamos percorrido. Havendo tal força, ela deveria se tornar, dentro de nós, aquilo que somos, transformando-se em nosso próprio eu, pois, somente assim, acreditaremos nela outorgando o espaço que ela necessita para realizar a sua obra secreta.

Anos depois, Freud fala a esse respeito no final de “As Novas Conferências Introdutórias da Psicanálise”. Lacan retoma-o dizendo ser esse o grande princípio da ética da psicanálise, Wo es war soll, Ich werden - onde isto estava, devo eu advir, que posteriormente se chamará a travessia do fantasma.

Num contexto em que o autor joga com o escuro e o claro do início ao fim, chama a atenção o fato de Freud não fazer nenhuma alusão ao nome da namorada de Natanael, Clara. E também se há ou não incesto, uma vez que Clara é irmã adotiva de Natanael.

Natanael escreve uma terceira carta dizendo que não vai se estender muito porque vai visitá-los. Aqui termina a primeira cena.

O relator do conto, amigo de Natanael, assume o relato, dizendo que Natanael foi visitar os dois irmãos. Clara o havia acalmado com a sua carta. Natanael retoma seu romance com Clara e escreve para ela uma poesia bastante peculiar do ponto de vista de alguém que queria encantar uma mulher, porque uma poesia do mais profundo mau gosto. Na poesia ele conta a Clara que eles vão se casar e, que, quando se encontram diante do altar, surge o horrível Coppelius que toca os belos olhos de Clara e eles batem no peito de Natanael, chamuscando-o e queimando-o com faíscas sangrentas. Coppelius agarra-o e joga-o numa roda flamejante, que rodopia com a velocidade de uma tempestade e o carrega para longe, zunindo e rugindo. É o bramido de um furacão irado, chicoteando as espumantes ondas do mar que se erguem como gigantes negros de cabeças brancas em luta enfurecida. Em meio a esse bramido selvagem, ele ouve a voz de Clara: - “Então, você não consegue me enxergar? Coppelius enganou você, não eram os meus olhos que ardiam em seu peito mas, sim, gotas ardentes de seu próprio sangue. Olhe para mim. Meus olhos estão aqui”. E Natanael pensa: “É Clara! Serei dela eternamente”. Esse pensamento penetra com tamanha força na roda de fogo que ela pára e dissipa-se no negro abismo.

Natanael olha nos olhos de Clara, mas é a morte que o fita gentilmente através dos olhos dela. Dizer para a mulher que se ama “eu olho nos seus olhos e o que vejo é a morte” – como no quadro de Escher, que tem a morte dentro do olho que fita – é terrível. Natanael achou que iria abordá-la nas poesias anteriores, e na verdade o fez, mas desta vez Clara ficou assustada com o mau gosto do namorado.

Ele retorna para G e encontra sua casa queimada, alguns pertences salvos pelos amigos e um novo apartamento alugado, em frente à janela de um físico, Spalanzani, que tinha uma filha, Olímpia.

Começa a observá-la achando-a maravilhosa, mas um tanto estática.

Um dia alguém bate à sua porta. Ele abre e vê apavorado o mesmo vendedor de barômetros. Lembrando que Clara havia dito que suas preocupações nada mais eram que fantasias de sua cabeça, faz a pessoa entrar. O vendedor começa a tirar de sua bolsa óculos e ele pensa que Coppola – assim se chama esse homem – não é Coppelius. Mesmo se assustando com os óculos, pois os confunde com olhos que o olham, ele compra o binóculo sugerido por Coppola. Natanael considera uma boa idéia porque, assim, poderá olha melhor Olímpia de sua janela. Coppola sai rindo e ele pensa: “Está rindo de mim! Acho que paguei caro por esse binóculo”.

Começa a namorar Olímpia de longe, até o dia da festa, na casa de Spalanzani, em que ela apareceria em público pela primeira vez. Natanael veste-se com a melhor roupa e vai. Ele quer dançar com Olímpia. Acha-a um tanto quanto estranha, mas pensa que mulher é assim. Dançar, porém, ela não dança, falar ela não fala, discutir ela não discute e é fantástico!

É impressionante, realmente, como o obsessivo denigre a mulher. Ele pensa que mesmo assim ela é fantástica, é maravilhosa! Fica feliz da vida, nunca uma mulher o escutou tão bem! E é verdade, os obsessivos ficam felizes quando as mulheres não desejam. O ideal da vida de um obsessivo é ter uma mulher que não diga o que ela quer.

Começa o namoro. Spalanzani abençoa os jovens nubentes e autoriza Natanael a fazer visitas a sua apaixonada Olímpia. Até o dia em que ele vai convencer Olímpia a ficar noiva. Clara já tinha ficado na memória. Porém, no momento em que ele chega para ver a namorada, lá está Spalanzani às turras com Coppola, numa briga terrível em que eles arrebentam a boneca Olímpia, que era uma criação, um autômato, do mecânico Spalanzani, com os olhos dados por Coppola, que era, sim, Coppelius.

Há no conto uma frase sem sentido, mas analisada por Freud em seu texto. Quando Spalanzani joga no chão os restos ensangüentados da boneca, diz: - “Você não vê que aqui estão os olhos que roubou de você?” É uma frase que, para o leitor desavisado, não tem o menor sentido. Por que os olhos da boneca Olímpia? O que autoriza Spalanzani a dizer que aqueles olhos eram dele, Natanael? É esse o ponto que possibilita a Freud afirmar que Olímpia é Natanael, e que o amor daquele que não ousa uma mulher é o amor narcísico.

A primeira parte dessa história se compõe da narrativa de três cartas, a segunda parte é composta pelo drama e a terceira pela tragédia.

Natanael fica louco, como qualquer sadio ficaria se descobrisse que sua noiva é um autômato e que arrancaram os seus olhos. É internado em um hospício, onde Sigmund, seu amigo, trata-o. Ele fica bom e volta para sua cidade, onde reencontra Clara. Freud não faz alusão a esse nome, Sigmund.

Um dia, passeando na praça principal da cidade, olhando a torre da prefeitura, Clara convida Natanael a subirem para que possam ver os efeitos do sol sobre a torre, que produzia sombras bucólicas sobre o vilarejo. Eles sobem e, lá, para ver melhor, Natanael pega no bolso os binóculos que comprara de Coppola. Ao olhar, vê o próprio Coppola se aproximar do vilarejo. O conto não deixa claro se é uma interpretação, mas também, para Freud, ele só poderia ter visto Coppola. Ao vê-lo, começa a cantar uma música “Gira, gira furação. Veja o cabelo negro”.

Freud não destaca em seu comentário, mas essa música é o final de um poema de Natanael, feito por ele próprio para a sua amada. Ele começa a cantar e tenta agarrar Clara para matá-la. O irmão de Clara, Lothar, corre para salvá-la. O povo quer subir na torre para pegar o louco e Coppola diz uma única frase: “Não precisa, ele já vai descer”. Natanael joga-se da torre e morre, cumprindo seu trágico destino.

O ESTRANHO EM FREUD

Este é o conto maior daquilo que Freud tende a estender a todos os seres humanos de uma sensação, ele diz, estética. Fala, no primeiro parágrafo do texto: “Vou me ocupar da estética. Só raramente um psicanalista se sente impelido a pesquisar o tema da estética, mesmo quando por estética se entende não simplesmente a teoria da beleza, mas a teoria das qualidades do sentir”. Bonito, uma belíssima forma de dizer o que é estética – a teoria das qualidades do sentir.

Ele diz que um analista não se preocupa com a estética, porque exatamente na estética já estão resolvidos os destinos pulsionais. O psicanalista se ocupa das malversações do gozo, das malversações desse destino pulsional e não da beleza estética ou da interpretação de uma realidade artística, o que nos diferencia dos jungianos, que tentam interpretar o autor de um quadro.

Na tese freudiana, não existe nada mais sadio nesse mundo que o momento da criação. O momento da criação é o ápice. Porém, não é através dela que se chegaria ao recalcado. E, numa definição clássica, interpretação é interpretação do recalcado. A criação, portanto, não é o recalcado.

Freud vai dizer na terceira parte do texto: o que incomoda é a morte. A morte não tem nenhum tipo de especificação, não há nenhuma parte com a qual se possa fazer pacto para lhe dar mais significação.

Freud nesse momento, em 1919, tem duas razões para estar preocupado com a morte. A morte está espalhada por toda a Europa, em plena Guerra Mundial; e a outra é a morte dele. Ele tinha uma fantasia de que morreria aos 62 anos. Em 1919 ele estava com 63 anos...

Esse texto é muito interessante enquanto método, por nos transmitir uma certa inquietação desse estranho sobre o qual Freud quer fazer a clínica. Parece-me que o termo sinistro, que quer dizer amedrontador, traduz melhor heimliche, alemão.

Freud quer provar algo muito importante sobre a universalidade nos humanos da sensação desse sentir sinistro, ele quer que todos saibam o que é o sinistro e, para um pesquisador, um cientista como Sigmund Freud, não ficaria bem se expressar em uma linguagem comum. Talvez esse seja um dos textos em que fica mais claro que a profundidade é a superfície. É a eterna pergunta de um analisando numa análise, como posso ir mais fundo? E o único jeito de ir mais fundo é ir à superfície; ali está a profundidade. Foi necessário Jacques Lacan dizer: vocês estão enganados em achar que o inconsciente está nas profundezas, o inconsciente está aqui, ou seja, aqui na sua cara. Lacan escreve no “Seminário da Carta Roubada”, publicado nos Escritos: aquilo que não se vê é aquilo que se mostra. A carta que a melhor polícia não vê é aquela que está colocada em cima do móvel. É claro que a carta que ninguém vê é a carta de amor.

Primeiro Freud faz uma pesquisa sobre heimliche. Ele pergunta em que circunstâncias o familiar pode se tornar estranho. Por que a palavra heimliche tem a ver com unheimliche? Heimliche, familiar, para unheimliche, não-familiar.

HEIMLICHE – UNHEIMLICHE

CONHECIDO – NÃO CONHECIDO


Mas, conhecido e não conhecido apenas em uma primeira aproximação, pois Freud dirá que o conhecido é desconhecido. Insisto na superficialidade do conhecimento, não no sentido da leviandade, mas na aparência daquilo que se mostra, justamente: mostra o que não se vê.

A primeira pesquisa que ele faz é através da língua. Ele diz, na página 277: “O estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, velho, e há muito familiar. Como isso é possível, em que circunstâncias o familiar pode tornar-se estranho e assustador é o que mostrarei no que se segue. Acrescente-se também que minha investigação começou realmente ao coligir uma série de casos individuais, e só foi confirmada mais tarde por um exame do uso lingüístico” - da palavra heimliche. “Na exposição que farei, contudo, vou inverter a ordem das coisas”. Freud detectou esse fenômeno em sua clínica. As pessoas diziam que alguma coisa familiar ficava esquisita. Por que algo familiar fica esquisito? A mulher é aquilo que fica esquisito. A presença de uma mulher jamais é familiar. Jamais uma mulher é parente. Uma mãe é parente, uma histérica é parente, mas uma mulher não é parente de ninguém, porque não faz par, não se junta a nada. De certa maneira, é impossível casar-se com uma mulher, se ela for uma mulher.

Quando Lacan diz que o amor é uma incessante luta com o mal-entendido é porque no dia em que um homem e uma mulher se entenderem, acabou-se o casamento. A base é o mau entendimento, e toda a aposta é como manter o mal-entendido, razão do desejo. O desejo se esgota no bem entendido. É exatamente o mal-entendido que diz: então está bom, vamos parar de discutir e vamos para a cama, no sentido mais usual da palavra, porque é onde se pode resolver alguma coisa do mal-entendido.

Freud não parte dos casos clínicos, mas dos casos do dicionário, entendendo que o dicionário recorta o conjunto das experiências semânticas do homem, na definição do professor Greimas. É sempre formidável ler Freud. Ele vai agradecer a pesquisa de dicionário que Theodor Reik e Sra. Fizeram para ele – foi a Sra. Reik quem descobriu que Coppola também quer dizer cavidade. Freud apresenta a tradução da palavra estranho em latim, grego e inglês. Em inglês, traduziu-se como uncanny, unconfortable; em francês, inquiétant, sinistre, mal à son aise; em espanhol, sospechoso, de mal aguero, siniestro. Finalmente, Freud conclui que as línguas italiana e portuguesa parecem se contentar com palavras que descreveríamos como circunlocuções. Ele pensou que em italiano e português não existia “sinistro”. Em árabe e em hebreu, “estranho” significa o mesmo que demoníaco, horrível.

Lendo Freud penso que ele poderia ter montado a seguinte equação: aquilo que é familiar tende à alcova e a alcova tende ao estranho.

FAMILIAR -> ALCOVA -> ESTRANHO

Freud começa a entender o porquê de algo conhecido poder passar por estranho.

Gostaria de trabalhar Sérgio Buarque de Hollanda que, em seu livro “Raízes do Brasil”, aborda a questão da cordialidade do brasileiro. Ele fala sobre essa cordialidade e o horror à politesse, ao homem polido. A politesse francesa, por exemplo, vai contra a cordialidade brasileira. É importante para nós essa cordialidade – o bater nas costas, meu irmão, etc.

Sérgio Buarque nos alerta para não ficarmos tão contentes com isso porque, como diria Nietsche, transformar todo mundo em uma imensa família pode ser também o pânico da intimidade de si mesmo e de sua família.

Como diz Nelson Rodrigues em uma de suas crônicas, “À sombra das chuteiras imortais”, o Brasil ganhou o campeonato e todos os estranhos das calçadas viraram amigos de infância. Foi interessante, para quem estava em Paris durante a Copa de 1994, enquanto os brasileiros comemoravam o tetra, ouvir o locutor francês dizer: os brasileiros estão muito contentes, mas “um peu impudiques même”, porque os brasileiros se abraçavam. O brasileiro tem um pânico da intimidade, enquanto o francês faz você “manger le vide”.

Tomo de Sérgio Buarque de Hollanda essa noção de que a família leva à alcova e a alcova leva ao estranho. A tentativa de dizer tudo conduz, de certa forma, à obscenidade. A psicanálise mostra que se pode falar até o limite do dizível e da responsabilidade pelo que se diz, e a partir disso, há a responsabilidade pela invenção de um significante novo. Não haveria significante novo se pudéssemos falar de tudo.

Freud diz que realmente uma família amedronta. Sabemos, de nossas experiências em nossos natais, o que acontece.

Na segunda parte do texto, Freud cita Schelling, escritor de quem recorda a frase da página 281: “Unheimliche’ é o nome de tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto, mas veio à luz”.

Em outro momento, ele fala que se, em uma análise, convocarmos o diabo, dos infernos, que ao menos saibamos conversar com ele. Se não, melhor não o fazer. É por isso que, em alguns momentos, um analista não pode permitir a interrupção de uma análise. A direção da análise vai do começo ao fim do tratamento.

Freud diz por que está preocupado com o que Schelling escreve. Schelling fala algo que dá um novo esclarecimento ao conceito do unheimliche, para o qual certamente não estávamos preparados. Ele retoma o trecho “mas retornou à luz”, porque unheimliche já foi heimliche e faz uma comparação com os deuses da Mitologia, que uma vez ultrapassados se transformaram em demônios, assim como as fantasias infantis de onipotência que, uma vez ultrapassadas, voltam como demônios estranhamente familiares a assustar os neuróticos. Essa é a conclusão a que ele chega, mas não tão rápido. Ele se pergunta, como bom pesquisador, o que dá medo.

Freud leu um autor chamado Jentsch, que escreveu sobre o assunto em 1906, e lhe agradece por tê-lo levado a ler Hoffmann. Jentsch achava ser este um problema de intelectualidade. Se isso for entendido como fantasia, o susto passa. Esta será a grande tese de Freud: susto não passa com intelectualidade nenhuma. Quando os intelectuais não se assustam ou perdem a possibilidade de se assustarem e não fazem análise, morrem, e morrem de porre, de álcool, como foi o caso de Hoffmann. Para ele, não foi suficiente escrever os “Contos Fantásticos”. Ele bebeu e morreu muito jovem, infelizmente.

Freud faz duas perguntas: ”quem amedronta?” e “por que amedronta?” À primeira pergunta ele responde que o conto é fantástico e pode parecer que amedronta por ter uma boneca, ou pelo personagem descobrir que sua noiva é um autômato. Mas Freud acrescenta que isso é risível, ridículo, porque quando Natanael está paquerando Olímpia na festa, os jovens ficam rindo. Quem amedronta não é Olímpia, mas Coppelius, Coppola, e Freud pergunta: “quem é Coppelius?” “Quem é Coppola?” São a outra parte ou a contra-parte do pai e, nesse momento, ele abre um viés para Melanie Klein, fazendo referência ao pai bom e ao pai mau. Pai bom é o que defende seus olhos do alicate de Coppelius, que é o pai mau. O pai bom é Spalanzani; Coppola é o pai mau. Freud diz que realmente todas as pessoas têm um pai bom e um pai mau, temas que são trabalhados por ele em outros momentos como o Superego e o Ideal do Ego. O pai bom é o que permite, que faz avançar, que dá o rumo, que conduz, e o pai mau é o que impede. Nas famílias isto é muito engraçado. Um viés permite, outro proíbe. Todos têm essas duas vertentes que se referem ao medo que se enfrenta da impossibilidade que um pai impõe, na medida em que se quer apossar de um objeto de desejo, porque surge a interdição, o medo da castração.

JUSTAPONDO FREUD E LACAN

Retomando do início, a única possibilidade de se ousar uma mulher é ultrapassando o medo da castração, não negando sua existência, sendo castrado. O peculiar, na psicanálise, é que lei e desejo andam juntos, o que não acontece muitas vezes na vida diária, em que satisfação e lei são contrárias uma à outra. Quando Caetano Veloso canta “é proibido proibir”, ou quando se diz “o preço da liberdade é a eterna vigilância”, estamos ainda no discurso social, onde um proíbe e o outro autoriza. Mas não se trata disso. São duas respostas sociais nas quais não há mudança de discurso.

O discurso pedagógico brasileiro está infestado de “pai complacente”. Por que ser bonzinho? Ora, exatamente, a mulher é uma conquista! Num primeiro momento, ele diz realmente o que causa – aqui, no sentido freudiano – o que amedronta: é Coppelius, Coppola, e se eles são realmente a mesma pessoa, qual é o efeito disso? O efeito é duplo.

Continuando na página 262, Freud o diz: porque a pessoa se depara com o seu duplo. É o que Lacan vai chamar de meu êxtimo, meu estranho íntimo, esse íntimo que me chega de fora pelo analista que, de certa forma, é um sucedâneo de pais, Coppola e Coppelius, mas não é o pai, não é a mãe, nem Coppola, nem Coppelius. É além do pai. Não é um superego, é uma Lei. Todos nós temos um duplo e esse duplo nós o animamos porque tivemos muito tempo para temer a morte e, apesar da morte, construímos uma eternidade. O duplo mais famoso chama-se alma, isto em qualquer religião. A alma é meu duplo eterno, é a parte de mim que não morre.

Passamos a vida criando almas, mas o preço da criação de almas é o preço da eterna fé e quem ajoelhou tem que rezar. Porque “Se parar de rezar a alma vem pegar”, é o que aprendemos no catecismo para pagar esse tributo, essa dívida.

As pessoas passam a vida pagando suas dívidas, mas não querem pagar uma análise. Na relação “custo-benefício” de que alguns gostam tanto, a análise é muito mais barata porque não se tem que pagá-la com uma fortuna inteira. Eu diria até que com uma análise pode-se permitir a construção de uma fortuna, em todos os sentidos do termo.

Freud diz que o nosso eterno duplo é a morte, para ela criamos respostas. A morte, representada por uma mulher, é a morte representada pelo vazio da vagina que provoca tanto medo em homens e mulheres. Por exemplo, o enaltecimento do gozo clitoriano, da masturbação nas mulheres, de gozar antes, ou nunca...

Diz Freud, na página 305: “Acontece com freqüência, neuróticos do sexo masculino declararem sentir algo estranho no órgão genital feminino”. É comum o relato, que coisa esquisita é essa? Existem inúmeras piadinhas sobre como Deus fez mal a arquitetura da mulher. São piadas que foram feitas para suportar alguma coisa que as mulheres não suportam e os homens, muito menos.

Freud caminha para o final do texto dizendo que não é qualquer coisa na vida que pode causar a uma pessoa este sentimento de estranheza. O sentimento sinistro é algo muito particular para cada um. Seria absurdo dizer que um acontecimento pode ser sinistro para todos tanto quanto seria absurdo dizer que um sonho pode ser comum a todos, ou que um mesmo elemento pode desencadear um sonho para todos. Algo provoca esse sinistro, é um encontro.

O sinistro é provocado pelo encontro de uma coisa que se quer. A dificuldade que os homens têm de tomar posse de uma mulher deve-se ao fato de que é mais fácil ter um objeto à distância. Para as mulheres também: é mais fácil ser o objeto à distância. A distância é, pois, uma proteção para ambos.

Nesse tempo, Freud fala somente dos homens. É Lacan que universaliza esta questão para homens e mulheres, considerando que ela não se determina no pênis, mas no falo. Portanto, vem de encontros muito específicos na vida de uma pessoa, e é necessário que haja o olhar de alguém nesse encontro: um Coppola, um Coppelius.

As pessoas, quando vão a um analista, muitas vezes pioram, porque encontram lá um Coppola, um Coppelius. Não é a mesma coisa dizer algo na sala de espera, no barzinho antes da sessão, no restaurante depois da sessão, e dizer durante a sessão. Nem vale o ”eu já pensei isto”. Ora, importa o que se diz na sessão, que adquire um peso e é sempre registrado: “eu disse na minha sessão”.

Em um belo momento, analisandos desistem de contar suas sessões. Tem um momento em que contam, e outro em que deixa de ser transmissível. É difícil compartilhar essa importância, tão privada e tão particular. Torna-se difícil a transmissão de uma frase lavrada no sangue de uma sessão analítica. É difícil e, às vezes, quando contada, imediatamente se põe sob o ridículo. Tudo aquilo que é diferente provoca o riso. Esses estranhos são, portanto, encontros fundamentais frente a alguma coisa fundamental, frente ao Coppola, frente ao Coppelius. É um encontro marcado - aliás, esse é o nome do primeiro grande texto de Fernando Sabino.

Realmente uma análise revela um “encontro marcado”, que precisa ser falado pelo sujeito. Lacan utiliza uma metáfora da Bíblia, quando Deus escreve com fogo na pedra, dizendo, “já te pesei, já te medi, já te examinei, já sei qual será o teu destino” (Daniel 5.25). Cada um tem essa inscrição marcada. A análise seria a leitura dessa inscrição.

O que é descrito no texto de Hoffmann sobre o Homem de Areia é necessariamente uma experiência pela qual todo analisando – que levar a análise até onde ela deve ir – terá que passar, desde a primeira reação do tipo “quem foi que disse isso?” Ou seja, desde a presença do duplo.

O que é o duplo em Freud reaparece em Lacan como sujeito dividido, ou seja, como divisão que o sujeito vive durante uma sessão: ”mas como é que eu fui me esquecer disto?” A cada momento a pessoa se estranha porque ela tem um inconsciente. “Como é que pude pensar isso, olha não vá pensar que...” – são exemplos comuns. Quando isso fica claro, a pessoa tem dois cominhos em uma análise: ou ela segue em frente, ou vai embora. São os momentos, talvez, de maior delicadeza na direção de um tratamento analítico. Quando uma pessoa diz, em sessão “eu não tenho mais o que dizer, já disse tudo”, é nesse momento que ela tem o que dizer. Porque o “eu não tenho mais o que dizer, já disse tudo” é a extenuação da noção do conhecido.

Nesse ponto, entra a teoria lacaniana, no sentido da precipitação, da forçagem – Sim, diga... Então...- de colocar uma série de shifters na escuta, que são como flechas, pedindo novas conclusões, para que se fale o impossível a ser dito. Quando o analisando diz “não dá para falar”, é então que se tem que atravessar a permissão de falar. A permissão de falar é paterna: o pai avaliza o que pode ser dito e o que não pode ser dito. É o pai que guarda o dicionário. O pai é o dicionário que a mãe lê. É muito esquisito mas, em um primeiro momento, é como se o analista permitisse a criação. Como alguém pode permitir uma criação? Que tipo de autorização uma criação pode ter? É um dos impossíveis da prática analítica.

Vemos a reprodução da história de Natanael na vida, a impossibilidade de se ousar uma mulher, de ousar dizer o que se deseja. Qual a tática básica do obsessivo, do homem? É jamais se expor para uma mulher dizendo “eu te quero”. Ele está sempre fazendo a mulher dizer o que ele quer. E por que a mulher diz? Porque não tem o menor compromisso com o que está dizendo. Não é porque seja boazinha, mas porque a histérica não tem compromisso com o que diz e, no obsessivo, ao contrário, o compromisso com o que diz é doentio. Eles se merecem. O obsessivo acha que tem uma palavra de homem, é um moralista kantiano de mierda, que insiste no “eu não posso dizer isto porque, depois, eles vão pensar...” - Pequeno Príncipe: torne-se eternamente responsável por aquilo que cativas, para depois ver no que vai dar. O obsessivo não o fala, não expressa o seu desejo porque tem medo da castração. Não pode se autorizar a falar, e muito menos autorizar-se a uma análise, evidentemente, e é por isso que há de se histerizá-los para o tratamento. E se ela diz “você quer tal coisa”, não é porque é uma mulher, mas porque é uma histérica. Existem muitas histéricas, enfermeiras de obsessivos, que ficam lhes dizendo aquilo que eles deveriam dizer. Uma mulher não responde pelo obsessivo o que ele quer, ela dá-lhe um basta quando diz “eu quero que você me diga o que quer”.

Se encontramos em Freud essa maneira animada de dizer as coisas, em Lacan encontraremos uma maneira matematizada, quando ele diz que nossos significantes foram todos recebidos. Por quê? Não podemos inventar um significante novo? Não podemos ousar um significante novo? Ousar não é só inventar, não se trata de um convite ao descompromisso: ousar um significante novo é responsabilizar-se por ele. Volto e me desculpo com Saint-Exupéry.

O APOSTAR SOBRE A TRANSFERÊNCIA

Concluo. Quando o sujeito atravessa esse destino marcado, quando pára de dar consistência ao Outro, em termos lacanianos, ele será capaz de parar de pensar que aquilo que faz, que as suas opções na vida são porque o Outro determinou que ele as fizesse, seja o analista, seu pai, sua tia, seu avô, etc...

O neurótico pensa que o Outro goza dele e, para escapar do desejo deste Outro, passa uma vida inteira trapaceando-o: “eu não faço, mas ele também não”. É a primariedade da neurose, não fazer nada na vida para ter o gostinho de sacanear o Outro: “ele precisa de mim, então eu não faço. Vou mostrar que sou livre” – além de neurótica, esta é uma posição fraca, porque do ponto de vista psicanalítico, a única liberdade seria a psicose.

Em uma análise, muitas vezes o analisando não entende o ter que apostar sobre a transferência. Mas para isso é que ela existe. Se alguma coisa de novo a psicanálise traz, é uma nova forma de discurso onde só apostando sobre a transferência haverá a possibilidade de existir uma criação nova no mundo.

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* Este texto é um fragmento do seminário de 10.8.94, que faz parte do Seminário A Causa do Desejo, estabelecido por Maria Margareth Ferraz de Oliveira, sem revisão do autor.

Publicado na Carta de São Paulo - Boletim Mensal da Escola Brasileira de Psicanálise - maio de 1996.