Silêncio das Gerações

01/01/2003 00h00

Jorge Forbes

Ex-ergo: O pai matou o filhinho; a filhinha matou o pai e a mãe; o aluno incendiou a escola; a senhora se suicidou. E todos pareciam tão sadios, iguais a toda gente! Está todo mundo perdido: maior que o medo, é o suspense. Surgem calmantes de ocasião, sempre três: psicose, moral e possessão. Voltam o chicote, as lições de moral e cívica e o ato de contrição. Um mundo reacionário se anuncia e Bush, no círculo oval de seu pensamento, reedita as peripécias do grande ditador. Oh tempos, oh costumes!

O pai refestelado em sua poltrona de domingo, acabou de ouvir fantásticas explicações sobre o mundo atual. Eram três especialistas em comportamento, concordantes com a necessidade de voltar à velha disciplina: “educação se dá em casa e chinelo e palmatória não deviam estar aposentados”. Ele está mais tranqüilo; nem dormia mais direito, com medo de ser assassinado. Chegou a pensar que se existem nos aeroportos detectores de metais, como não descobriram ainda os detectores de “mentais”?

Seu sonho de segurança tinha ficado abalado com aquela psiquiatra esfaqueada pela filha. – “Como é que não previu? Não era psiquiatra? Santo de casa não faz milagre”, reconfortou-se. Três dias depois, Mariana, coordenadora do Padre Félix, colégio de classe média alta dos Jardins, constata boquiaberta que mais de cinqüenta por cento dos meninos chegaram ao colégio com rosto macerado: apanharam em casa. Corre a seu supervisor – “Há um silêncio entre as gerações”, diz ele, que está difícil de ser assimilado. Não há uma só educação padrão, standard, logo, o que há são educações, no plural. E se há educações há que se escolher. Preferir uma ou outra é opção pessoal. Não há uma razão para que seja essa e não aquela. É um querer mais que um saber, e o querer não se compreende totalmente, é arbitrário. Confundem arbitrário com abuso de poder e, no entanto, arbitrário só diz daquilo que não se demonstra pela dedução. Sim, meu filho, essa é a minha opção. É claro que existem outras formas. Melhores? Não sei, pode ser, mas essa é a minha e eu sou seu pai, eu sou sua mãe. Você vai mudar de casa? Não adiantará, as opções mudam mas não o arbitrário, o silêncio da razão. Pais detestam falar assim pois invariavelmente, o filho vai dizer: “Eu não gosto de você”. Ai! Nem pai, nem professor suportam esse “eu não gosto de você”. Tratam de falar manso, buscar explicações, convencimentos, concordâncias e o que melhor conseguem é transmitir que tudo se explica, que não há limite à razão. E o filho, proibido de dizer “eu não gosto de você” vai se encharcando na angústia do ilimitado: bateu um carro? Dou outro. Perdeu um ano? Ganhou maturidade. Matou um índio? Te absolvo. Eu te compreendo em qualquer coisa, meu filho. E o filho da compreensão ilimitada se tatua: uma fronteira no corpo: se bate: um limite à expansão; mata, se droga, se mata.
Não mamãe e papai, nem compreensão geral, nem palmatória. Se há uma herança digna da paternidade é a de que nem tudo se explica, não porque não se queira mas, simplesmente, por ser impossível.

É, meu filho, tem um silêncio entre nós dois, a ponte da palavra não nos contém. Vamos nos perder? Pode ser que não, sobre esse silêncio podemos inventar. Teve um Drummond que de uma pedra no meio do caminho, em vez de jogá-la no outro, poetou. Teve um Chico e um Milton que cantaram uma coisa que não tem nome nem nunca terá.

O limite da palavra é a invenção, é só poder suportar: melhor esse risco que a desgraça razoável.

Meu filho, senta aqui, não nos compreendemos, e daí? Pôr do sol, mergulho em Fernando de Noronha, brigadeiro, beijo, avião decolando, chuva na mata, precisa de explicação? Tem tanta boa coisa no silêncio. PSIU!