Verdades mentirosas

23/02/2011 23h02

Jorge Forbes

WikiLeaks é o nome do momento. Essa palavrinha, quase impronunciável, mistura de havaiano com inglês, quer dizer algo como “vazamentos rápidos”. E foi mesmo o que aconteceu: vazamentos rápidos de papéis governamentais, em especial, dos EUA, levando o WikiLeaks, às primeiras páginas dos jornais. Polvorosa mundial com direito a prisão do australiano de nome francês, Assange, dono do site. Claro que por razões puramente sexuais, assim tentaram explicar, e não pela fofocagem diplomática revelada. Como sempre, lá vieram as mentes brilhantes querendo impedir o acesso ao site, fazendo o cerco da Internet. Querem prender a Internet!

O episódio WikiLeaks vem na seqüência de outros semelhantes, tais quais as tentativas de leis restritivas a downloads de música, ou de filmes, e antecede o próximo fato ainda não anunciado, mas logicamente previsível. Temos que nos deparar com o óbvio: há uma nova forma de laço social inaugurada pela revolução da informação, que necessita ser legitimada e não a continuar ser jogada debaixo da cama das velhas soluções, do gênero das aqui referidas. Nessa nova forma, não haverá segredos escritos que resistam. “Escreveu, o outro leu!” é a nova regra.

Ah, então quer dizer – como se anda comentando – que estaríamos vivendo a era da transparência total? Engano. Seria transparência se tudo o que pudesse ser visto, se tudo o que se publicasse fosse verdade. O paradoxo é que ocorrerá exatamente o contrário: tudo a priori será mentira e as pessoas ficarão tontas correndo atrás da verdade. Até hoje a verdade tinha um selo de garantia de quem a pronunciava. Por exemplo, ao falarmos “revela-se um segredo de Estado”, era o Estado que afiançava a verdade do segredo, que o possuía. Hoje, no emaranhado da rede cibernética, não há uma pessoa, ou uma instituição para afiançar o que aí circula na velocidade da luz.

Isso inaugura um novo tempo, nesse caso específico, de fazer política, alterando a relação do público e do privado. Público era o que todo mundo sabia, enquanto privado era o de conhecimento de poucos. Agora, cada vez mais a partição se dará entre o que é cifrável, ou seja, o que é passível de ser representado por uma cifra, uma letra, um número, e o que resiste a qualquer tipo de simbolização. Em psicanálise, com Lacan, esse ponto fundamental de intimidade, impossível a ser simbolizada, foi chamado de “êxtimo”. Nós, humanos, não teríamos uma intimidade, mas uma extimidade, uma vez que se trata de uma intimidade estranha à própria pessoa. Esse ponto, como cantaram os poetas, “não tem nome nem nunca terá”, e, no entanto, é fundamental, nele se decide uma vida. Quem faz análise sabe a que estou me referindo. Um analisando passa muito tempo tentando descobrir onde pode ancorar o seu barco, onde pode amarrar a sua égua, como se diz no popular. Nessas tentativas, vai passando em revista, sessão após sessão, às mais diversas bússolas. Vai-se dando conta, uma após a outra, que nenhuma é suficientemente boa para lhe garantir o caminho certo, que sempre há um Norte que escapa, seja por incompletude, seja por relativismo. A conclusão do trabalho de análise fina de muitas possibilidades é uma mudança paradigmática, na expectativa de se garantir no Outro da linguagem, suposto juiz das verdades.

Como será um mundo baseado em uma verdade incompleta, por ser impossível de dizê-la toda, e não por verdades trancadas a sete chaves, hoje, escancaradas pela era digital? Começamos a desenhar seu esboço, mas estamos longe de termos um mapa claro e definido. O que podemos por enquanto deduzir, é que a taxa de pessoalidade vai aumentar, entre todos, não só os amigos, mas em qualquer tipo de parceria. Paulatinamente, o ideal das relações assépticas, supostamente científicas, limpas de qualquer afeto abrirá espaço para o cara a cara, ao olho no olho, ao cada um por de si.  Já é assim nas redes sociais; nelas não se fala por meio de intermediários, de embaixadores porta-vozes, e, sim, diretamente. Nossa época aponta à diminuição dos intermediários em todos as áreas do convívio, o que é seguramente muito interessante para a experiência humana.

(Artigo publicado em “Psique – Ciência e Vida”, n° 61, janeiro de 2011).

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