(12/2/2009)

22/07/2009 20h11

Se há orientação lacaniana, é que não há nenhum dogma lacaniano, nem mesmo o ‘inconsciente estruturado como uma linguagem’, tese nenhuma ne varietur dando lugar o abecedário, breviário, compêndio dogmático. Há somente uma Conversação contínua com os textos fundadores do acontecimento Freud, um Midrach perpétuo que confronta incessantemente a experiência à trama significante que a estrutura.

A orientação lacaniana não é, como às vezes se ouve, orientação pretendendo ser única, totalizante, totalitária, repelindo ou expulsando orientações desviantes. Bem ao contrário, ela nomeia a única língua comum existente na psicanálise, a única Conversação onde se comprovam as elaborações, onde eles entram em competição. É o concurso dos pretendentes, é a dialética universal das pretensões, é o choque, o carnaval, a feira da discórdia e da luta dos significantes e das significações, nessa atmosfera de “páteo dos milagres” que sempre foi a dos lugares onde se forja o novo - no combate, tempestade, furacão, algazarra.

(Jacques-Alain Miller: Barcelona, 23 de julho de 1998).