O Cálculo Coletivo

23/07/2009 19h55

Nota redigida por Rodrigo Abrantes, sobre a abertura de uma apresentação de pacientes, realizada por Jorge Forbes, no HC, em 27/10/2006.

Tema: O Cálculo Coletivo

“O sujeito é fruto do cálculo coletivo”, aprende-se em Freud. Essa frase, retomada por Jacques Lacan, é muito importante para nossa prática, pois dizer que minha ação é produto de um cálculo coletivo é diferente de dizer que é fruto de uma soma de opiniões.

Será que uma junta médica funciona melhor pela soma dos saberes ou pelo cálculo coletivo que ela provoca? É uma questão epistemológica crucial, porque diz respeito a duas posições distintas: uma entende que o saber se acumula e a outra que ele se faz no confronto com o outro.

A psicanálise é adepta da posição de que o saber se faz no confronto com o outro. A isso chamamos conversação. Quem primeiro estabeleceu regras para isso foi Sócrates - sempre um grego já falou o que consideramos ser o brilho do dia... -. A experiência do banquete, tão cara a Lacan, se realizava por meio do confronto dos saberes até a perda das referências, num entrecruzamento em que se buscava o ponto a ser discernido. O exemplo que Sócrates nos apresenta disso é a rosácea, cujo ponto fundamental é o que une as diversas pétalas.

Digo então que nossa discussão psicanalítica é um cálculo coletivo e por isso é normal que comparemos casos, serviços, teorias; estabelecendo uma conversa.

Hoje, o cálculo coletivo está muito em voga em instituições chamadas Think Tank, os mais avançados meios de produção de saber com conseqüência para a vida na globalização. A expressão surgiu nos EUA, dentro do exército. Mas antes esse processo já havia sido utilizado na Inglaterra - também no exército - como forma de fazer com que as pessoas elaborassem um novo saber que lhes possibilitasse vencer uma guerra.

Foi assim que um psiquiatra militar explicou a Lacan, ainda sob a fumaça dos destroços de Londres, como tinham vencido o exército nazista (A psiquiatria inglesa e a guerra). Esse psiquiatra, que iria se revelar como um dos maiores analistas do mundo, Wilfred Bion, explicou a seu colega francês como fazer um cálculo coletivo. Entusiasmado, Lacan estabeleceu essa prática em sua escola sob o nome de cartel, que hoje, infelizmente, virou standard.

Trago essa conversa para nossa prática e digo que, nas apresentações no HC e no Genoma, praticamos o cálculo coletivo.

No Genoma o projeto é claro e tem um nome: A Multiplicidade dos Corpos. Nosso objetivo é estudar uma forma de retirar o sofrimento e exigir uma nova resposta das pessoas portadoras de doenças genéticas, que não seja prêt-à-porter.

Gostaria que também estabelecêssemos a apresentação no HC dentro de um projeto claro: quem participa, quais os objetivos e os efeitos do trabalho, quais resultados obtemos. É importante que todos possam participar do banquete, que enfermeiras e residentes, enfim, todos os membros da equipe possam participar, sem a preocupação com o conhecimento prévio dos conceitos psicanalíticos. Assim, que a psicanálise deixe de ser uma experiência isolada no hospital, mas integrante, questionadora e terapêutica.