A Psicanálise na alcova - introdução de Alain Mouzat, para o Avesso do Avesso

04/04/2010 14h11

A psicanálise na alcova

 

Alain Mouzat

 

 

À margem da literatura oficial, sempre houve, na França, uma literatura devassa. Ela não deixa no entanto de ser a expressão de sua época: espaço da expressão popular galhofeira nos fabliaux medievais, ou consciente do seu poder subversivo, como os escritos libertinos do século XVIII - essa literatura explora temas narrativos relativamente constantes.  Assim as Jóias indiscretas[1] de Denis Diderot (1748) retoma o argumento do fabliau medieval "O cavaleiro que fazia as bocetas falarem"[2]: um homem recebe  o dom - no caso por intermédio  de um anel mágico - que lhe permite ouvir em voz alta as revelações indiscretas da " boca de baixo" - as "jóias" - à revelia de suas donas.

 Através do artifício romanesco, Diderot vai tratar, num distanciamento irônico, muitos dos temas sérios que agitam o debate intelectual de seu tempo. Entre outros temas abordados, um que nos interessa diretamente, tratado no capítulo 18 do livro, é a invenção de uma solução ao desencontro amoroso, à desarmonia da relação entre homem e mulher: tema particularmente sensível para psicanalistas lacanianos que sabem que a condição humana é exatamente marcada pela não existência da relação sexual.

 Dois colegas, Teresa Genesini e Jaci Palma leram as Jóias indiscretas e tecem seus comentários particularmente a respeito dessa "solução" que assombra todas as utopias[3]...

 


[1]  Jóias Indiscretas, Denis Diderot, Editora Global, Rio de Janeiro, 1986, Trad. E. Brandão.

[2] "O cavaleiro que fazia as bocetas falarem" in O Livro dos Amores, Henri Gougaud, Martins Fontes 2001, trad. Márcia Aguiar

[3] Ver o tratamento dado à sexualidade na República de Platão, na Cidade do Sol de Campanella, na Utopia de More, ou ainda no Novo Mundo Amoroso de Fourier, entre outras.