A Criação: Um Significante Novo

23/07/2009 21h44

por Jorge Forbes

...o duplo em Freud reaparece em Lacan como sujeito dividido, ou seja, como divisão que o sujeito vive durante uma sessão: ”mas como é que eu fui me esquecer disto?” A cada momento a pessoa se estranha porque ela tem um inconsciente. “Como é que pude pensar isso, olha não vá pensar que...” – são exemplos comuns. Quando isso fica claro, a pessoa tem dois cominhos em uma análise: ou ela segue em frente, ou vai embora. São os momentos, talvez, de maior delicadeza na direção de um tratamento analítico. Quando uma pessoa diz, em sessão “eu não tenho mais o que dizer, já disse tudo”, é nesse momento que ela tem o que dizer. Porque o “eu não tenho mais o que dizer, já disse tudo” é a extenuação da noção do conhecido.

Nesse ponto, entra a teoria lacaniana, no sentido da precipitação, da forçagem – Sim, diga... Então...- de colocar uma série de shifters na escuta, que são como flechas, pedindo novas conclusões, para que se fale o impossível a ser dito. Quando o analisando diz “não dá para falar”, é então que se tem que atravessar a permissão de falar. A permissão de falar é paterna: o pai avaliza o que pode ser dito e o que não pode ser dito. É o pai que guarda o dicionário. O pai é o dicionário que a mãe lê. É muito esquisito mas, em um primeiro momento, é como se o analista permitisse a criação. Como alguém pode permitir uma criação? Que tipo de autorização uma criação pode ter? É um dos impossíveis da prática analítica...

(trecho do texto "Um Significante Novo, o Real e a Mulher - O Homem da Areia", publicado na Carta de São Paulo de maio de 1996 e na seção "Escritos", "Artigos" deste site).