A febre do ciframento

23/07/2009 20h03

Jorge Forbes

Vivemos a febre do ciframento, do tudo tem preço, tudo é possível de ser comparado, avaliado, nada é singular. A febre do ciframento da sociedade de controle defende-se do medo da singularidade: de que alguma coisa escape às medidas do avaliador; de que alguma coisa não tenha preço, de que não tenha nome e que nunca venha a ter. A sociedade de controle, defende Jacques-Alain Miller no segundo capítulo do livro “Você quer mesmo ser avaliado?”, vem em resposta à queda do “Estado-providência”. Foi-se o pai, que por sua autoridade hierárquica unia os rebentos, vem o “Estado-controle” aliviar os que sofrem da angústia da liberdade alcançada; liberdade para criar e se responsabilizar pela invenção de um modo de vida que uma singularidade incomparável pede. É uma característica dos tempos atuais, da passagem de uma modernidade “pai-orientada” a uma pós-modernidade, a uma globalização que vai além do pai, deixando muitos desorientados ou, em uma palavra, desbussolados. Surgiu o novo homem, o Homem Desbussolado, carente de garantia.

Ah! Com que rapidez a tão almejada liberdade de ação, de amor, de trabalho, enfim, de escolha, se transforma em pesadelo encharcado de angústia, já que não há escolha sem risco. E, frente a esse risco da escolha – do dizer o que deseja –, o homem, com saudade de uma vida prescrita no cardápio paterno, pede que o reconheçam como igual aos outros, pois é isto que faz a avaliação, destaca Miller: é a sedução de ser comparado em tudo ao outro. É a morte, é o combate à singularidade, ao que escapa ao controle, porque nessa nova sociedade de contrato, como a define Jean-Claude Milner no primeiro capítulo, nada pode ficar de fora.

Se antes, na sociedade da lei, o que não era proibido – o que a lei silenciava – era permitido, hoje, na sociedade de contrato, só é permitido o que está escrito, o que pode ser avaliado de antemão e posto no papel.

(do Prefácio do livro “Você quer mesmo ser avaliado?”, de Jacques-Alain Miller e Jean-Claude Milner; Editora Manole, 2006).