A intimidade indevassável

23/11/2009 19h18

Jorge Forbes

Do ponto de vista psicanalítico, temos três tipos de intimidade: imaginária, simbólica e real. A imaginária e a simbólica têm em comum o fato de poderem ser representadas: uma, na imagem e outra, na palavra. O mais interessante para os dias de hoje é a terceira, a intimidade real, por exatamente não poder ser representada. Ela diz respeito a um sentimento silencioso que habita cada pessoa, que, embora não possa ser expresso de nenhuma maneira, nem por palavras, nem por imagens, só podendo ser aludida poeticamente, orienta os atos fundamentais da vida de cada um. Imagens podem ser roubadas, palavras podem ser copiadas, mas a intimidade real não, ela é indevassável exatamente por não ser passível de representação. Um exemplo sensível seria imaginar que você pode ter a fotografia do Roberto Carlos, que você pode saber muita coisa da vida dele, no entanto, se encontrá-lo, você vai ver que não o conhece. O mesmo se pode dizer da atriz que tem seu corpo nu estampado em uma revista masculina; isso não a faz mais conhecida sua, e, ao encontrá-la, nada lhe permitirá uma conversa de alcova.

(trecho de artigo publicado no Estadão de domingo, 11 de outubro de 2009)