Além da Cena, O Obsceno

23/07/2009 21h46

A Febre dos Avaliadores nº 4

Jorge Forbes

Há três tipos de tortura: física; física e moral; moral.

De uma tortura física, a vítima se protege através de reações de fuga, raiva, isolamento.

De uma tortura moral, a vítima tem menos chance de se defender, pois o próprio pensamento do torturado é catalisado para agredi-lo. A idéia de base está sintetizada no verso de Rimbaud, de quem comemoramos o centenário: “eu é um outro”. A minha identidade se constitui através do outro e, em especial, de seu olhar.

Uma terrível tortura moral é a nudez. A nudez, que no animal é a sua natureza e força – como no leão, no tubarão, na águia – no humano é sua fraqueza, é seu ‘ridículo’.

Vista um animal, como no circo, e ele aparecerá ridículo; dispa um homem, atrás da grade, e ele se verá ridículo.

O ser humano é frágil quando resumido à sua simples natureza: sem nome para definir, sem idéia para desejar, sem roupa para proteger, ele passa a ser ninguém e, nesse estado de nudez, é levado ao confronto de seus piores temores, vergonhas, inseguranças.

Isto quanto ao fato em si da tortura moral. Agora, publicar postumamente fotos de uma vítima é matá-la uma segunda vez. A expectativa de vida de uma pessoa ultrapassa seu tempo biológico. Para cada um, e para seus próximos, também conta – e muito – o tempo da memória que fixa uma imagem, uma referência, ali onde havia um corpo. A exposição pública das fotos aviltantes de Wladimir Herzog mata-o de novo, ataca sua memória, reaviva uma cicatriz que dói.

Que não se justifiquem os adeptos da febre reacionária de avaliação com a importância de denunciar os torturadores: ir além da cena não é chegar à verdade, é ser obsceno. Não se mata de novo o torturado, sua família, seus amigos, em nome de uma prova, por mais importante que ela seja. Que, depois de tudo, ao menos aquela foto sorridente do álbum de família possa ser admirada e amada.