Avessos - O Jurista e o Analista

23/07/2009 21h40

Uma vez por semana, o analista Jorge Forbes e o jurista Tercio Sampaio Ferraz Jr. debatem aspectos do curso “Direito e Poder”, que o jurista conduz em São Paulo, na pós-graduação da PUC. Publicamos aqui breves indicações, momentos, interferências, detalhes.

DIREITO E PODER – I

Não estamos acostumados a pensar em como poder e força se distinguem. Uma impressão, baseada nos debates dessa semana, é que poder e força encontram três momentos:

(1) De identificação: quando a substância que sustenta o poder é a força. Se a força é física, animal, e o poder é espiritual, humano, eles mostram sua identidade nos canhões, a dita “última razão dos reis”.

(2) De separação: podemos entender, ao contrário, que o poder está em exercício sempre que, dispensada a força, a submissão se conserva. Maior o poder de quem menos necessita da força para fazer valer a sua vontade. Assim quem aceita responder ao outro, ou assume que existe uma instância diante da qual deve justificar suas ações, é sujeito de poder, mesmo sem estar sob coerção física. Nesse caso, o poder aparece como relação, sem substância.

(3) Re-encontro: Porém, se assumirmos que as palavras e os pensamentos têm força, ou seja, que tocam os corpos, como disse o analista – pelo pensamento e pela palavra podemos adoecer, ferir, chorar, rir, amar; assim como uma obra muito física, como a arte plástica, pode fazer pensar – então abre-se a nossos olhos uma dimensão em que força e poder aparecem mesclados e difusos nas relações sociais: vemos força onde imaginava-se ser terreno apenas do poder, em qualquer discurso (ouvimos a poética, corporal, interior à retórica) e, o mais inusitado, vemos também uma forma de poder interna à relação de força, como se toda a presa aceitasse, de algum modo, o seu destino entre os dentes do predador...