Desde o seu nascimento...

20/05/2010 05h09

- sobre os quinze anos da Escola Brasileira de Psicanálise, por Jorge Forbes -

 

 

       Para mim, esses quinze anos da EBP me trazem trinta anos de lembranças, às quais me entrego comedidamente, tendo como guia o afeto.

      Julho de 1980, Caracas. No canto de uma lanchonete bem ruinzinha, conto a Jacques-Alain Miller como enxergava o panorama da transmissão de Lacan no Brasil: de um lado, os marcados pela religião - ex-padres e seminaristas -, do outro, os marcados pela antropofagia que propunham, depois de comerem o bispo Sardinha, erigirem um Lacan tropical. Comentei que eu pensava ser importante apresentarmos uma outra leitura que privilegiasse a clínica e a sua lógica, sem sacralização e sem carnaval. Meu interlocutor concordou vivamente. Foi assim que começou nossa estreita colaboração.

     Embora, naquela época, os mais conhecidos lacanianos fossem pessoas de uma geração mais velha, tais como: Maud Mannoni, Serge Leclaire e Moustapha Safouan, que eu conhecia das minhas freqüentações dos seminários parisienses, desde 1976, via na "nova geração" liderada por Jacques Alain - que na época ainda não usava o hífen - e em pessoas como Alan Grosrichard, com quem já trabalhava, o melhor caminho para o que me parecia necessário: uma clínica passível de ser transmitida clara, lógica e consequentemente.

     Voltamos a nos encontrar em Paris, em janeiro de 1981, em sua casa já na Rue d´Assas, mas em outro andar. Contei em um artigo chamado Pax Lacaniana os detalhes dessa reunião: quem estava, o que foi falado e o que foi decidido. Isso pode ser lido em: http://migre.me/qiHG. Acertamos a vinda de Jacques-Alain à São Paulo, para outubro daquele ano, sob convite pessoal meu. Isso me pesava, mas não havia outra forma: tínhamos passado em revista todos os grupos que se referiam à Lacan no Brasil, por insistência minha. Alguns, como o Centro de Estudos Freudianos, eu procurei diretamente. Com todos verificamos incompatibilidades de projeto de ambas as partes, que impediram um acordo de propósitos.

     Realizamos, então, o encontro fundador do Campo Freudiano no Brasil, no final de 81, em meu consultório, na Rua Wanderley 246, em São Paulo. O que foi trabalhado pode ser lido no início do livro: Lacan Elucidado, de Miller. Trabalhamos sob condições emocionais sensíveis, haja vista a morte de Lacan ocorrida um mês antes.  Foi nessa viagem que criamos - Jacques-Alain e eu, acompanhados de alguns colegas - a Biblioteca Freudiana Brasileira, instituição matriz do Campo Freudiano no Brasil. Tanta história se seguiu! O objetivo de comemoração festiva dessa carta me impede continuar os detalhes, passo a grandes pinceladas de como vejo os períodos posteriores.

     A década de 80 foi, para mim, a de estabelecimento do Campo Freudiano no Brasil. Em seguida a São Paulo, instituições foram criadas ou, já existentes, foram incorporadas ao Campo Freudiano, compondo uma rede: Rio e Curitiba, logo depois de São Paulo; Salvador, um pouco mais tarde, e, depois, Belo Horizonte. Foi o tempo das pessoas se conhecerem, de irem se formando na disciplina do comentário, dos primeiros Encontros nacionais e dos internacionais, de muita gente se filiando e também de algumas perdas importantes.

     A década de 90 pode ser dividida em dois qüinqüênios: o primeiro foi a da criação da Escola, o segundo, de sua instalação; nos dois, o mesmo trabalho, a saber, a mudança da lógica dos grupos para a lógica da Escola. E não era só uma mudança institucional, mas uma mudança que tocava a cada um. Escrevi naquela época um pequeno trabalho sobre "re-análise" - http://migre.me/qiK2 - no qual discutia porque a chegada da Escola ocasionava a retomada da análise pessoal de muita gente de longo percurso analítico. Nada a ver com melhor ou pior oferta de analistas, mas com o efeito de Real, no sentido lacaniano do termo, que o estabelecimento do laço social em uma Escola provoca. Foi o tempo do entusiasmo, da descoberta, da aventura, das possibilidades.

     A década de 2000 foi dominada pela mão sombria da burocracia sustentada pelo mutualismo, conforme diagnosticado por Miller; pela ordem unida, pelo voto único, pelo apagamento das diferenças, pelo irrelevante, em decorrência, pela chatice. Assistimos a tentativa de transformar uma Escola de Lacan em uma oficina autorizada Lacan. Paradigmático da sombra que se abateu sobre a Escola - claro que aludo a Churchill - foi o episódio do presidente do Conselho associado ao coordenador da AMP-América proibirem a entrada, em um congresso da Escola, de uma das mais prestigiadas cientistas brasileiras, para assistir, por vinte minutos, a apresentação de um trabalho em que participava. Que vergonha! Se a Escola não sucumbiu foi, entre outros motivos, dentre os quais um é a lógica já citada, por ter contado com membros que energicamente disseram não a essa deriva empobrecedora.

     Agora, 2010, quinze anos, ufa! Até que chegamos bem até aqui, sobretudo aprendemos muito, como diz o lugar comum. Se for hora de lembrar o quanto fizemos, é hora também de planejar o que vamos fazer nos próximos quinze. As mudanças da globalização provocam a Escola a responder: - E agora, Psicanálise?

     Entre alegrias e dificuldades, prosseguiremos, pois, afinal, os não tolos erram...

     Parabéns, EBP, e que sua idade juvenil lhe ajude a legitimar o melhor de seu espírito irrequieto, criativo e desbravador.

     São os votos de quem lhe viu carinhosamente nascer,

     Jorge Forbes

(Publicado em Correio – Revista da Escola Brasileira da Psicanálise – n.65, p.115-117, 2010)