Do Acidente à Coincidência

23/07/2009 20h05

Jorge Forbes

Para distinguir o sintoma tratável, decifrável, do início da análise, do sintoma intratável do final, Lacan se valeu da diferença entre a nova e a velha ortografia do termo “sintoma” em francês.

Segundo o dicionário Petit Robert, o termo aparece na língua francesa em 1370, grafado como sinthome, e em 1538 adquiriu a grafia atual, symptôme. Lacan explica que a grafia atual faz referência abusiva à origem grega do termo pela presença do ptoma, partícula que indica queda. Dizemos, por exemplo, “caí doente”. Ora, escrever com a velha grafia, sem o ptoma, tira essa evidência do cair, do desvencilhar, como dizíamos antes. Uma análise caminharia do symptôme ao sinthome. Isto é, da perda das identificações à identidade essencial.

Procuramos a correspondência desse exemplo em português. Os dicionaristas registram sintoma como “acidente”, algo que cai, e como “coincidência”, que significa igualar-se. Parece-nos razoável propor, com Lacan, que no início de uma análise o sintoma seja tratado como um acidente, algo estranho, e que, em seu percurso, da depuração sofrida pelo trabalho da análise, o sintoma estabeleça-se como coincidência inevitável, não mais expressão de um compromisso conflitante do qual se pode liberar, mas de uma identidade; osso duro a suportar. Uma análise iria do acidente à coincidência.

(do livro “Você quer o que deseja?”, p. 193 – 194, Ed. Best Seller, 2003)