Duas Mortes

23/07/2009 22h23

Jorge Forbes

Todos os jornais comentam a morte de Jorge Eduardo Guinle, o Jorginho Guinle. São páginas inteiras de elogio sorridente. No entanto, nem sempre foi assim. Os de direita o criticavam por não saber cuidar de sua fortuna: nem investiu, nem frutificou. Os de esquerda viam nele a imagem da decadência capitalista e da injustiça social: enquanto tantos necessitavam, ele tanto esbanjava.

Por que onde ontem era só crítica, hoje são só elogios? Qual o ponto em comum? Jorginho provou em vida, e até na morte, que viver é bem mais do que sobreviver. Não basta ter o justo e o necessário: a vitamina balanceada, o pulmão bem arejado, as veias enceradas, os músculos tinindo. O que faz a alegria de um robô não comove um homem. Sim, existe sim a morte biológica a ser evitada, mas há uma outra morte, há duas mortes. De que adianta as células estarem impecáveis quando morreu o desejo, a honra, o gozo de um detalhe íntimo, sem o qual a vida é pura banalidade?

A morte biológica não assusta os que sabem que o maior perigo é a morte da fidelidade ao desejo.

Jorge Guinle avisado pelos médicos que deveria sofrer uma nova e séria operação de aneurisma, solicitou alta do hospital, pediu uma suíte no Copacabana Palace, comeu estrogonofe, sonhou com a vista do mar – velho conhecido, dormiu e morreu biologicamente. Deixou inscrito, em seu Rio de Janeiro, um estilo. Ele não é um exemplo de vida, ele é um exemplo da vida.