Medidas de Natal

23/07/2009 21h43

Jorge Forbes

Ele trocava as etiquetas dos vestidos de sua mãe todos os Natais. Demorou muito tempo para que seus sete irmãos descobrissem a trapaça afetiva do mais velho. Todo ano era a mesma coisa: só ele acertava o manequim correto, número 42. Não havia nada que fizesse sua querida mãe perder o corpinho voleibolista dos seus 20 anos de doce memória: nem o peso da idade, nem a vida sedentária, nem o refinamento gastronômico. Ela, a mãe de todos, bonita e inteligente mulher, desfilava orgulhosa o presente do queridão, o primeiro filho. O único que tinha bom gosto e bom olho, que acertava suas justas medidas, que não comprava aquelas roupas 44, ou 46, que ela nem iria experimentar, pois eram para uma mulher muito mais velha e gorda: a prova estava dada.
O queridão sorria orgulhoso e cínico, feliz pela reafirmação de filho preferido, feliz pela cara abobalhada-raivosa de seus irmãos. Só ele sabia como vestir uma mulher tão especial, a mãe. E o truque era simples, uma banal troca de número, sempre pelo 42, que ele mesmo costurava.

Esta é uma história verídica. Ela conta um dos mais corriqueiros fenômenos que ocorrem nesse tempo natalino: a Expectativa. Expectativa com e maiúsculo, pois diz respeito a fatores fundamentais da identidade: como sou visto, como sou querido, como sou medido. Um mene mene tekel ufarsim, que o profeta Daniel soube interpretar. Se todo ano se renova a possibilidade é porque o erro é freqüente e o acerto é raro: só com truque, como já foi visto. Como esperar que o outro saiba o que eu quero, se nem eu mesmo sei e nem ele sabe o que quer?

(Trecho do artigo publicado no jornal ESTADO DE SÃO PAULO - Aliás, em 19 de dezembro de 2004 - leia a íntegra na seção "Escritos" - "Artigos" deste site).