Partitura

23/07/2009 23h04

Jorge Forbes

Presente. Além do objeto em si, um presente mais vale pela composição da imagem do presenteado. Do seu corpo, quando se trata de uma roupa; do seu gosto cultural, quando se trata de um livro; do seu esporte favorito, do seu jogo, de sua casa, do seu escritório. A possibilidade de acertar o que o outro quer é quase nula. Sempre haverá um espaço para a queixa disfarçada: não era bem isso, mas serve.

O presente sob medida está praticamente condenado ao fracasso mútuo, do presenteado e do presenteador. Uma somatória de presentes equivocados faz com que muitas festas de Natal – passados os momentos alegres do reencontro e comilança – acabem em uma brigalhada, só em aparência incompreensível.

Um razoável antídoto a estas brigas anunciadas é presentear com algo inusitado e inútil. Um presente assim tem a força de um enigma e faz o presenteado se perguntar o que isso tem a ver com ele, aonde colocar?

Um amigo deu para outro uma partitura da ópera Don Giovanni de Mozart. O detalhe é que o feliz presenteado não era músico, não sabia ler partituras e nem freqüentava óperas. Foi um presente inesquecível, um presente a interpretar.