Remédio

23/07/2009 23h02

Jorge Forbes

A cada semana um grande jornal anuncia a descoberta do fim da esquizofrenia. A repetição da descoberta parece não desanimar os novidadeiros, que não têm medo da contradição. E, além da esquizofrenia, também a depressão, a mania e outros quadros patológicos são propagandeados como doenças igualzinhas às outras, sobre as quais o portador não tem a menor responsabilidade.

Esse é o ponto principal: convencer aquele que sofre de sua irresponsabilidade, explicando que depressão, braço quebrado ou artrite são semelhantes na falta de compromisso subjetivo. A conseqüência é que muitos começam a pensar que os sentimentos humanos podem ser corrigidos da mesma forma que osso quebrado e que o ideal é a ortopedia do desejo.

Pensa-se que para tudo tem remédio, verificado na altíssima taxa de consumo de antidepressivos no Brasil. A continuar assim, podemos prever o passo seguinte: a epidemia dos calmantes. Em vez de se salientar o óbvio – que o aumento da oferta, na globalização, exige o aprimoramento dos processos de escolha e decisão – é mais fácil dizer que a pessoa está “estressada” e tacar-lhe um calmante para diminuir a sua percepção da multiplicidade de opções.

É importante lembrar que felicidade não tem remédio.