Saindo do controle

23/07/2009 20h00

Jorge Forbes

Para Lacan, só o psicótico é livre. Normalmente pensa-se o contrário: que “o psicótico está preso na sua loucura”. Quando Lacan diz que “o psicótico é livre”, ele o diz no sentido dele estar fora da cadeia discursiva; o psicótico tem uma “liberdade dura”, uma “liberdade ruim”. Mas ao mesmo tempo, quando vai pensar o final de análise anos depois, Lacan retorna ao modelo da psicose em Freud, para tentar uma liberdade que não seja psicótica. Ele a pensa através do exemplo de James Joyce, através do qual entende ser possível algo semelhante a esta liberdade, sob certas condições. Uma condição fundamental seria a da responsabilização por sua invenção de viver, por sua diferença. E é nesse sentido que penso que a psicanálise pode propor algo distinto daquilo que se vê na sociedade de controle. Ela pode contrapor aos sistemas completos de controle que se espalham pela nossa sociedade, um sistema incompleto, que articula razão e afeto, seja na política, pensando um novo tipo de líder; seja nas organizações, que de adversárias passam a estabelecer parcerias; seja na escola, criando uma nova forma de lidar com o saber, aprendendo a desaprender; seja na família, que possa servir como um local de suporte das diferenças. Existe uma nova clínica que contraria os que pensam que Freud envelheceu. Ao contrário, Freud está mais novo que nunca. Estamos vivendo uma revolução: não precisamos ter a mesma compreensão, para estarmos juntos, é o que mostram os jovens. Sabemos a necessidade de suportar o mal-entendido. Nós não precisamos sair dessa sala, deste Fórum, achando que todos nós pensamos a mesma coisa. Isso não tem a menor importância. Temos é que nos sentirmos incluídos, neste momento, nas mesmas dúvidas; se isso foi realizado aqui e se esse Fórum pôde ser o instrumento de algo novo, então esse Fórum foi um sucesso.

(do improviso final do Fórum A Psicanálise versus A Sociedade de Controle, 10 de junho de 2006)