Silêncio Necessário entre as Gerações

23/07/2009 21h54

Jorge Forbes

...A melhor herança que um pai pode deixar ao filho não é seu ouro, não é uma viagem à Disneylândia, ou sequer o esforço para pagá-la. É o limite da compreensão, um arbitrário, o cultivo de um silêncio necessário entre as gerações. Freud chamava-o de castração.

Viver a incompreensão entre as gerações como um arbitrário é abandonar o causalismo, dispensar a justificação: as razões de cada atitude, afinal, são sempre questionáveis.

Quando cheguei à França pela primeira vez, muito jovem, procurei alguém com quem tive uma longa conversa sobre psicanálise. Pude fazer muitas perguntas, tive grandes explicações. Depois de duas horas, diante do meu fascínio, ele disse: “sabe... eu poderia explicar isso tudo da maneira contrária”.

Um momento assim é suficiente. Ele cala: a longa conversa, então, foi o silêncio da resposta. Bater no filho, ao contrário, embora possa acontecer sem palavras, não preserva qualquer silêncio. É a profusão de respostas, numa fala autoritária, impositiva, covarde.

O silêncio é duro, muito mais difícil que a surra, para um pai. É uma marca do não-saber no discurso, da vergonha.
É, por isso mesmo, a única chance do desejo, das soluções não reacionárias, não sintomáticas. É a chance de uma honra afirmada sobre a singularidade. A única chance para o entusiasmo da invenção.

(excertos do texto "Epidemia de Medéias", de 29 de novembro de 2002, disponível na seção "Escritos", "Artigos", deste site)