Solidário É Articular Solidão

23/07/2009 20h40

por Jorge Forbes

Entramos em uma nova era chamada Globalização. Muito se tem estudado, desse novo tempo, a vertente econômica. Vou abordar, psicanaliticamente, as conseqüências sobre a formação da identidade humana.

Na era anterior, chamada Industrial, a identidade se formava em torno a padrões verticais – um exemplo simples é pensar em uma torcida de futebol. Os torcedores do Santos compartem um mesmo traço em comum, da mesma forma que os torcedores do Palmeiras compartem outro traço. Eles defendem bravamente seus traços identitários – as cores do seu time, de sua camisa - e, muitas vezes, brigam por eles. Conhecemos as disputas entre santistas e palmeirenses. Esse padrão de identidade vertical propicia um sentimento forte de inclusão coletiva e as pessoas se sentem protegidas quando em grupo. É só ver a euforia em torno a muitas cervejas geladas, na mesa de um bar, após a vitória de seu time.

A globalização, que começamos a viver, ao contrário da era anterior, privilegia a multiplicidade de ideais em vez da concentração em torno a alguns poucos. O efeito que este fenômeno dá na sociedade é uma sensação de aumento do individualismo, fazendo muitos chorarem nostalgicamente por uma época passada, onde, ao ver deles, teria havido maior sentimento de solidariedade humana.

Pois bem, considero importante discutir este ponto. É comum compreendermos as palavras ‘solidário’ e ‘solidariedade’ no sentido de companheirismo, até mesmo, de compaixão. Fica completamente esquecido que na raiz de ‘solidariedade’ está o termo ‘solidão’.

Proponho pensarmos que não é tão verdadeiro que estejamos numa epidemia de individualismo, mas, sim, que nossa época, marcada pela falta de padrões coletivos de comportamento, faz com que cada qual se depare com um aspecto incomunicável de sua existência, a sua própria solidão. Surge então, um novo tipo de amor, o amor solidário, aquele que é capaz de articular diferenças singulares, solidões, não exigindo traços de igualdade entre os que são próximos, como ocorre nos dois outros tipos de amor que eu destacaria, e aos quais fomos mais habituados: o amor baseado no prazer compartido e o amor baseado no interesse compartido.

Esta nova era pede um novo tipo de amor para o laço social, que não seja mais verticalmente orientado. Ele existe, é o amor solidário, já citado, articulador dos aspectos singulares de cada pessoa, o que é fundamental, uma vez que não há como alguém suportar a sua singularidade sem a presença de outro alguém.

O poeta Rimbaud concentrou esse aspecto em um pequeno verso: - “Eu é um outro”. Não devemos confundir ‘sociedade narcísica individualista’ com ‘sociedade solidária’.

Um milhão de jovens dançam em uma festa eletrônica, no meio da rua, sem dividirem o mesmo significado – solitários, portanto - mas compartindo o mesmo ritmo. É de se pensar.