O sonho acabou, viva o sonho

22/07/2009 20h23

Jorge Forbes

Ontem era possível ser rebelde. Vivia-se uma época padronizada do “dever ser”.

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A morte era o troféu do rebelde, quando finalmente, transformava-se em herói. Seu caixão era levado em procissão pela turma. Seus feitos transformados em memória gloriosa e, paradoxalmente, em novos padrões para falsos rebeldes, amantes da contestação pasteurizada, sem risco, que passavam a se vestir, andar, dirigir e falar como seu herói.

Hoje não é possível ser rebelde. Rebelde a quê? Não há mais um consenso coletivo contra o que lutar, não há grandes grupos fechados em uma bandeira comum, mas pequenas, porosas e flexíveis tribos. Não se pede coerência, acabou o “O que é isso companheiro?”, o tempo é da mistura, do ‘mundo mix’. Se antes a responsabilidade era coletiva frente a uma escolha comum, agora ela é subjetiva, cada um é responsável por suas diferentes escolhas. O lugar da morte também não é mais o mesmo. De ponto final que consagrava uma carreira, ela passa a ponto de partida. Logo, está afastada a morte real, só valem seus representantes alusivos. Os mais conhecidos são os esportes radicais, do tipo: na terra, escalar, no ar, paraglider, no mar, kitesurf. O sucesso desses esportes vem da necessidade não de ir além do limite, como fazia o rebelde, mas, ao contrário, de estabelecer um limite, de saber onde está a morte e de como lidar com ela.

(trecho do artigo de Jorge Forbes – O sonho acabou, viva o sonho – Revista TRIP 163, fevereiro 2008)