Transformando a Luz

23/07/2009 19h56

Jorge Forbes

Nada naquela paisagem poderia anunciar qualquer emoção. Era uma subestação de retransmissão de energia, à beira de uma estrada ruidosa, às 11 da manhã de um dia de falso inverno, tanto em claridade, quanto em calor.

Uma estação dessas nos acostumamos a não ver, pela sua falta de qualquer interesse: postes altos e baixos; alguns grandes caixotes de aço cinza-esverdeado - provavelmente transformadores gigantes - aqui e ali ventoinhas pouco entusiasmadas frente à temperatura escaldante.

No meio do pátio da entrada – um amplo espaço calçado de pedrinhas que fazem a delícia do cantar dos pneus dos carros, do romântico ranger dos sapatos e do horror das motos – bem ali, colocaram uma grande tenda branca. Em um dos cantos, havia uma mesa enfeitada de flores, solitárias testemunhas de vida naquele lugar, mesmo que passageiras, na qual destacavam-se algumas jarras de frutas diversas, que valiam mais por seus diferentes coloridos cítricos, que pelo gosto intocável. O vento, que levantava a toalha da mesa, completava o quadro de um quase deserto, ou de um quase oásis.

Umas cinqüenta pessoas, a maioria homens, se distribuíram sob as quatro bordas da tenda, envolvendo dois violeiros que demonstravam que o Hino Nacional ganha singeleza nas cordas de uma viola. Os discursantes de praxe se apresentaram na seqüência: quem construiu, o engenheiro; quem comprou, o poder público; quem vendeu, a companhia de energia.

Em seguida, ocorreu o corte simbólico da fita de inauguração, que consistia em uma pequena faixa de tecido azul, de não mais de um metro, amarrada entre dois cones de borracha.

Cortada a fita, ouviu-se uma sirene. Nenhum passarinho teria aquele canto contínuo e forte. Tudo parecia ser igual ao minuto anterior, mas se sabia que não era mais. Uma das ventoinhas estava rodando. Será que já estava antes? Não dá para afirmar: a sirene mudou a percepção. Silêncio de todos; aquele barulho dizia que máquina também nasce e que engenheiro pode ser mãe. Enquanto o som da sirene decaía, começava a subir o dos fogos; todos rojões de um só tipo. A fumaça branca dos estouros lentamente desenhava no céu azul bandeirinhas brancas de benesses; fadas derramando sobre a estação seus melhores votos.

Os homens estavam todos com o sorriso amarelo de uma emoção difícil deles mesmos perceberem. Eles então pareciam não dar muita bola, como se houvesse uma indiferença que o costume traz. As mulheres, as poucas ali presentes, não acham aquelas peças de aço e fios em nada parecidas com um recém nascido. Mal sabem elas que os homens também não acham um recém nascido em nada parecido com uma pessoa.

Uma sirene cortou os ares, assim que cortaram a fita. Muitas casas passaram a ter mais luz à disposição. Muitos disfarçaram o choro emocionado por tanta beleza.

Um transformador de luz pode transformar gente.