Um Homem Pacato

22/07/2009 20h20

Henri Michaux

Estendendo as mãos fora da cama, Plume ficou surpreso de não encontrar a parede. “Veja só, pensou, as formigas devem tê-la comido...” e voltou a pegar no sono.
Logo depois, sua mulher o agarrou e o sacudiu: “Olha, diz ela, preguiçoso! Enquanto você estava ocupado em dormir, roubaram a nossa casa.” De fato, um céu intacto estendia-se por todo lado. “Deixa pra lá, já foi mesmo”, pensou.

Logo depois, ouviu-se um barulho. Era um trem avançando sobre eles a toda velocidade. “Apressado assim, pensou, com certeza vai chegar antes da gente” e voltou a pegar no sono.

Em seguida, o frio o acordou. Ele estava encharcado de sangue. Alguns pedaços da sua mulher jaziam perto dele. “Junto com o sangue, pensou, sempre surge uma quantidade de dissabores; se esse trem pudesse não ter passado, eu ficaria muito feliz. Mas já que passou...” e voltou a pegar no sono.

- Vejamos, dizia o juiz, como o senhor explica que a sua esposa se tenha machucado a ponto de ter sido encontrada dividida em oito pedaços, sem que o senhor que estava ao lado pudesse ter feito um gesto sequer para impedir, sem nem mesmo ter percebido. Eis o mistério. Tudo se resume a isso.
- Nessa via, não posso ajudá-lo, pensou Plume, e voltou a pegar no sono.
- A execução acontecerá amanhã. Acusado, tem alguma coisa a acrescentar?
- Desculpe-me, diz ele, eu não acompanhei o caso. E voltou a pegar no sono.

Tradução Alain Mouzat, com a colaboração de Enio Sugiyama Junior e a revisão de Marcia Aguiar.