Um "Ponto de Basta": A Vergonha

23/07/2009 20h09

Jorge Forbes

"...Procurei na topologia lacaniana um modo de mostrar por que – embora as pessoas possam ficar muito inquietas na mudança do laço social que presenciamos pela perda dos padrões, da pai-orientação que nos norteava – quem esperou uma desagregação não a viu acontecer. A Lacan isso era importante: se não ocorre ruptura, será por existir algum “ponto de basta”, um limite. A isto ele chamou vergonha.

Não falava, portanto, da vergonha grupal, do constrangimento pelo olhar do outro, do superego. Seu tratamento psicanalítico dirige-se a um ponto que cada um não pode ultrapassar em si porque, se o fizer, a vida perde o sentido. Pensando assim, Lacan pôde distinguir, para além da vida biológica, de  sobrevivência, a vida de honra, recobrindo a vergonha.

Quem perde a referência vertical, a organização a partir de um superior em quem se espelhar, descobre, nesse ponto íntimo, uma outra orientação. Em um plano social, percebemos que, sem o constrangimento da ordem paterna, a liberdade não fica ilimitada: a liberdade é o limite da própria liberdade..."

(trecho do livro "A Invenção do Futuro: Um debate sobre a pós-modernidade e a hipermodernidade", ed. Manole, p. 59-60)