Cinquenta tons de molho inglês

18/05/2015 03h28

Jorge Forbes

 

"É o tema da vez: o livro Cinquenta tons de cinza glamourizou o sadomasoquismo. E a graça dos realities shows de gastronomia atuais está no sadismo. Não são programas de culinária, para ensinar receitas, como havia antigamente.

São formatos que exploram a relação entre o chef e o participante, suposto escravo. Assim, a culinária fica em segundo plano, pois toda a sedução do programa está nessa relação sadomasoquista. 

É muito engraçado porque, num momento em que há um debate do politicamente correto, programas sadomasoquistas como esses fazem sucesso no mundo. Isso porque eles respondem a uma inquietação da época. Vivemos um período em que as pessoas se sentem muito perdidas, a sociedade está 'desbussolada'. Frente à angústia atual, todo mundo quer ter um chef na vida que dite o padrão do gosto. 

As pessoas perderam seus parâmetros porque o laço social não é mais vertical como antigamente, quando havia comportamentos fixos e padronizados. Quando você sabia, por exemplo, que nunca poderia colocar na mesa feijão com filé de peixe. Nessa época em que se perdeu o how to do, o que é certo e o que é errado, as pessoas têm angústia de exercer essa liberdade. Como tudo pode, é possível errar mais. E isso as aflige. Ao expressar o desejo mais livremente, elas se angustiam, porque têm o poder da escolha. 

Nesse momento de desbussolamento, ter um chef que me diga qual é o certo e qual é o errado me acalma frente às minhas escolhas e aos meus desejos, em relação à comida, em relação a tudo na vida. 

O telespectador se identifica com os apresentadores, que passam a ser charmosos pelo seu autoritarismo – eles normalmente recebem os convidados com os braços cruzados, atitude de desconfiança em relação ao interlocutor -, ou com os participantes, torcendo por eles. As pessoas vibram, e os concorrentes consolam os que foram expulsos, mas no fundo aqueles estão felicíssimos porque é um competidor a menos. O público sabe que aquilo tudo é falso. É um show de reações humanas em que o espectador tem uma palheta de cores bastante rica e variada, e pode se identificar com diversas pessoas do programa. 

O interessante desse formato é que os chefs se transformaram nos juízes do gosto, sugerindo à população que existe um gabarito do gosto. E gosto é algo profundamente pessoal, onde não existe norma, regra. É como política e religião: não se discute. 

Todo esse fenômeno, que a gente assiste em nossos sofás, tem a ver com um endeusamento dos chefs no Brasil. O francês, por exemplo, tem uma relação mais responsável com a comida e com o gosto. Desde criança, ele aprende a prestar atenção ao que está comendo, ao que combina e ao que não combina. No restaurante francês é normal a pessoa discutir com o chef por causa de um prato. No Brasil, o que mais acontece é o agradecimento ao chef, quando não um pedido de autógrafo. Aqui, o poder do nome é maior do que o poder do gosto." 

Entrevista para a Revista 29 Horas, maio 2015

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