Em Campina Grande, sobre a psicanálise do século XXI, Jacques Lacan, a globalização e mais.

30/09/2005 00h00

Campina Grande, 30/9/2005

Sobre um "novo software" psicanalítico, compatível com o século 21. Como seria?

Esse “novo software” psicanalítico permite lidar com outros sintomas que estão além das estruturas psicopatológicas tradicionais, do mundo de Freud, do século XX, que foram a neurose, a psicose e a perversão. É um software que incide na relação do corpo da pessoa com o que ela diz, que percebe como a palavra de alguém e seu corpo podem se desencontrar, nos casos tradicionais, ou até estarem disjuntos, como em muitos casos atuais. Uma pessoa pode viver o desencontro de uma neurose: negar o que deseja; ou de uma psicose: encontrar uma realidade que ninguém comparte; mas também pode viver uma radical disjunção, na drogadição, na obesidade, nos casos de depressão ou violência atuais em que a pessoa age sem ter nada a dizer. O “novo software” precisava tratar essa segunda possibilidade, dos curtos-circuitos da linguagem, que os tratamentos tradicionais não alcançam, porque estes são sintomas de uma nova era, a globalização, em que as identidades se desestruturam e a pessoa fica desbussolada. O “novo software” está atento também às novas soluções que surgiram com globalização em resposta à quebra das identidades. Elas foram encontradas, por exemplo, pelos jovens, nos esportes radicais e na música eletrônica, que excedem à dialética habitual.

Sobre a experiência com Jacques Lacan.

Sempre um analista, ou seja, uma presença – uma presença surpreendente, afetiva, enigmática. Não havia um “setting” específico para Lacan, sua insatisfação com todas as respostas o mantinha como um curioso exemplar, para quem nada era igual a nada, tudo era diferente, singular.

Sobre a experiência de divulgação da psicanálise pelo caderno Aliás, da Folha de São Paulo.
O caderno Aliás é do Estado de São Paulo e eu sou um dos colaboradores. Para mim é uma oportunidade importante de provar a virulência da psicanálise nos temas do cotidiano - no caso do Aliás, nos fatos da semana, pois é um caderno que analisa o que se passou nos últimos sete dias. É também um exercício de não encarcerar a psicanálise em uma linguagem paroquial de iniciados, o que lhe é mortal.

Sobre a obra "A Invenção do Futuro", nos temas da hipermodernidade e das possibilidades virtuais da realidade, uma questão: se a tecnologia amplia as possibilidades da "leitura" psicanalítica do mundo e dos seres humanos.

A tecnologia tem funcionado como uma mídia cotidiana, como a voz, o gesto. Por isso, o importante na nossa era não é a tecnologia em si, mas o fato de que, através dela, intensificamos nossa tentativa de comunicação, de entendimento, e o interessante é que o entendimento não vem. Na falta dos limites físicos – sem podermos culpar a ausência de um telefone, a carta que não chegou – estamos experimentando os limites da própria palavra, dos argumentos, do sentido. Essa é a novidade. A experiência de encontrar limites na própria liberdade é algo que vale para a psicanálise. É, inclusive, uma experiência que pode conduzir à responsabilização psicanalítica, tema de minha predileção.

Sobre como deve progredir o consumismo atual.

Pensemos esse assunto a partir da idéia de troca. As pessoas reconhecem diversas formas de satisfação em falar e ouvir as outras, em trocar objetos, experiências. O consumo de massa é uma radical redução desse modelo: em que uma só criação de uma pessoa é feita para atrair ou gerar desejo, e demanda, no outro. Se a padronização é muito grande, podemos supor que muita gente está engolindo o que tinha na frente, sem gostar mesmo do sabor, sem ter desejado aquilo. O que podemos prever é que as ofertas de produtos se tornem mais flexíveis, as pessoas podendo escolher e até participar da produção de maneira criativa, como co-autoras, o que é um sinal do desejo – porque ele se torna uma responsabilidade da pessoa. Quando há escolha, há também criação por parte de quem escolhe, há desejo não no sentido simples, do mercado, mas no sentido subjetivo. Se esse movimento de maior responsabilidade e liberdade se sustentar, as relações de troca, no futuro, podem ganhar uma nova expressão, e perderem a face culturalmente pobre do “consumismo”.

Sobre sua palestra em Campina Grande e sobre sua visão, como um dos fundadores, da importância do trabalho atual desenvolvido pela Escola Brasileira de Psicanálise.

Vou falar em Campina Grande para especialistas. Vou abordar os efeitos, na clínica e na sociedade, do deslocamento da figura idealizada do pai, que brilhou na era anterior - até 1980, na era industrial. As pessoas hoje se sentem à deriva, desbussoladas, como tenho chamado, e corremos o risco de uma vaga reacionária, representada por uma disciplina rígida e ultrapassada, aparecer como falsa solução. Pretendo demonstrar as mudanças na clínica psicanalítica e quais são as novas soluções que temos a propor aos sintomas da globalização.

Agora, a Escola Brasileira de Psicanálise. Realmente, participei ativamente da sua fundação, em 1995, mesmo de muito antes. Ela é fruto da instalação do Campo Freudiano no Brasil, que se deu em 1981, através da Biblioteca Freudiana Brasileira, criada por Jacques-Alain Miller e por mim. Essa Escola, a meu ver, está entrando em seu terceiro momento. O primeiro foi o da sua instalação, em várias partes do Brasil, momento marcado pelo entusiasmo da novidade e pela angústia do novo, em seus membros. Depois, entramos no segundo momento, que foi, no seu estabelecimento, de fixação e - por que não dizer? – burocratização. Momento mais seguro, em que as pessoas se reconheceram, entre-si, mas onde a criação sofreu um pouco. Quero crer estarmos entrando no terceiro momento, em que o espírito criador dessa Escola não atemoriza o conforto de cada um, possibilitando, além do reconhecimento do grupo, a inquietação criativa que a psicanálise exige. Particularmente na Paraíba, venho com muito carinho, uma vez que estive aqui, com os colegas paraibanos, para criar esse pólo da Escola.