Genialidade acessível

18/05/2015 03h07


Confira a entrevista cativante e descontraída com o psiquiatra e psicanalista precursor do ensino de Jacques Lacan no Brasil

Jorge Forbes nasceu em Santos, uma ilha de vida própria, marcada pelo mar e pelo contato com o estrangeiro, que se destacava por ser o maior porto da América Latina e palco das artes musicais, cênicas e da literatura. Um verdadeiro berço dos artistas brasileiros. Sua vida foi muito marcada pela inspiração santista e, também, pelo Rio de Janeiro, a Bossa Nova e a MPB. Fruto de uma família de intelectuais, sem dúvida alguma sua vivência influenciou as escolhas no futuro. Seu pai era santista e médico neurologista, um autêntico erudito, obcecado por livros e amante ciência pelo meu pai gerou um psicanalista. O psicanalista vive nessa fronteira entre a ciência, com o cuidar do outro, que é o ato semelhante ao médico, e a representação do teatro da vida de uma pessoa. Essas duas correntes se juntaram em mim e foram minhas principais influências para ser psicanalista”, discorre Forbes. A escolha foi concretizada e o caminho de sucesso começou a ser traçado com muito amor. Forbes tem um dom, é um intérprete dos conflitos humanos e um curioso inveterado. Confira a história fascinante e os devaneios mais profundos do gênio da psicanálise brasileira:

 

Início da carreira

Como surgiu a ideia de se tornar um médico psicanalista?

Eu sempre tive uma profunda curiosidade pelo ser humano, sempre fiquei fascinado com as pessoas e suas variedades. Sempre me questionei sobre como é que somos tão parecidos uns com os outros e, ao mesmo tempo, tão diferentes; como é que pessoas tão diferentes convivem; por qual motivo as vacas, os macacos, os cavalos são todas iguais, mas nós não. Falamos e nunca nos entendemos, mesmo assim continuamos falando. As contradições do ser humano, a criatividade, a dor e todas as características do bicho homem sempre me fascinaram. Aos 13 anos eu li sobre isso. Era muito jovem e fiquei fascinado com a vida de Freud e com as perguntas que fizeram com que ele inventasse a psicanálise. Desde pequeno era isso que eu queria ser e essa certeza me levou à medicina, na qual tive bons e maus professores. Quase desisti. Iniciei gastroenterologia, que me mostrou a incidência imensa das doenças gástricas a partir da cabeça. Com isso, voltei à psiquiatria. Então, formei-me em medicina, especializei-me em psiquiatria e, ao mesmo tempo, em psicanálise.

Como foi o início de sua carreira? Fale a respeito.

Eu fiz a faculdade de medicina em Santos e concluí o sexto ano em São Paulo. Quando finalizei o curso, decidi pela psiquiatria e procurei meu antigo professor, Carol Sonnenreich (para mim, um dos maiores psiquiatras que o Brasil já teve). Fiz três anos de estágio no Hospital do Servidor Público Estadual e, simultaneamente, continuava com minha formação psicanalista. Comecei a fazer meus seminários de Melanie Klein e estudos de psicanálise com analistas dessa sociedade, porém, não concordava com um aspecto nessa corrente, que baseava o tratamento na contratransferência (achar que um sentimento do analista pode ser a verdade do paciente). Então, abandonei meus estudos e a carreira que eu tinha escolhido. Fiquei triste com estas decisões. Até que um amigo psicanalista me falou sobre Jacques Lacan e sua visão contrária à contratransferência. Foi a minha janela para insistir na psicanálise. Na época, 1974, eu tinha 23 anos e ninguém no Brasil sabia quem era Lacan. Então, fui a Paris buscar informação e seguir os seminários de Lacan, que, hoje, representa a psicanálise majoritária.

 Psicanálise empresarial

Qual a relação que as empresas devem ter com o divã? Argumente sobre a importância dessa prática.

Total. Não são apenas as pessoas que estão de cabeça para baixo, as empresas também estão. Uma empresa hoje em dia tem que ser uma produtora, uma editora de cultura, senão está fadada a morrer. A psicanálise é a disciplina mais avançada que nós temos para refletir a pós-modernidade no ambiente social. Portanto, o que as empresas têm a ver com o divã e a psicanálise? Tudo! Elas têm que correr e antes que morram devem chamar um psicanalista.

Psicanálise e suas vertentes

Trabalhar com psicanálise é um desafio?

É um desafio diário, porque na psicanálise é quase uma lei ver cada caso como se fosse novo. É diferente do trabalho médico. O psicanalista tem sempre que ver. Não existe piloto automático para ele.

Qual é a importância da interpretação para a psicanálise? Como você interpreta e a partir do quê?

A interpretação é um dos instrumentos do psicanalista. Ela se dá sempre a partir do relato da pessoa, que fala livremente tudo o que lhe vem à cabeça, sem uma tentativa de elencar coisas mais importantes ou menos importantes. Quando uma pessoa nos conta tudo o que lhe vem à cabeça, ela nos mostra a matriz da forma que ela significa o mundo. A partir disto, o psicanalista capta, por meio das coisas faladas pelo paciente – e também por meio da entonação, da musicalidade, do ritmo, do tropeço, entre outros fatores –, sua identidade psíquica, pela qual ele vê o mundo. Então, o psicanalista mostra isso ao paciente para poder perguntar se ele quer continuar utilizando essa marca ou quer mudar.

Ao que atribui o fato de ter se tornado uma das maiores referências nacionais em psicanálise?

Não questionando a veracidade do que você está dizendo, mas eu me entendo da seguinte maneira: tive uma formação muito boa e uma atividade institucional muito grande. Criei, junto de outras pessoas no Brasil, o Campo Freudiano e a Escola Brasileira de Psicanálise; escrevi livros, teses e artigos; formei muitos psicanalistas; fui professor na USP; criei e dirijo a Clínica de Psicanálise do Centro de Estudos de Genoma Humano da USP. Além disto, sempre me preocupei em falar claramente; impus a mim quase que uma obrigação de mostrar que as pessoas podem entender Freud e Lacan. Nunca me recusei a uma presença na imprensa, pois isto é uma função necessária para o psicanalista formador de opinião. Sempre colaborei com a grande imprensa brasileira, já tive coluna fixa em alguns jornais, além de programas de rádio. Também sou curador do Café Filosófico da TV Cultura e sempre achei fundamental a presença do psicanalista na praça pública.

Conquistas

Você se sente um homem de sucesso? Está realizado?

Eu realmente adoro o que eu faço. Eu não sei se sou um homem de sucesso, mas sou um homem de sorte, porque trabalho com o que eu adoro, seja no consultório, na imprensa ou na empresa. A psicanálise me faz descobrir muitas coisas diariamente e estar em contato com a coisa que eu mais gosto no ser humano todos os dias. Eu não me canso de trabalhar. O meu trabalho não é para eu ganhar dinheiro e depois usá-lo fora daqui, aonde eu vou ser feliz. Férias para mim são raríssimas, porém eu não necessito muito do tempo de férias, do tempo de fazer algo diferente que vai me aliviar, pois eu adoro o que eu faço. Se sucesso quer dizer um embate com aquilo que sede, ou se ainda significa encontrar algo novo, eu acho que eu me preparo para algo novo todos os dias.

Quais as principais lições aprendidas com a psicanálise?
A grande lição é que de perto ninguém é normal.

Qual é a principal mensagem sobre psicanálise que você deseja passar à sociedade?

Eu acho que talvez a psicanálise seja a mais humana das disciplinas, porque ela une teoria e prática. Ela não só fala como a psicologia, por exemplo, mas age sobre o ser humano, fazendo a clínica do homem, possibilitando a ele se deparar com o mais essencial e característico da vida humana.

Os dilemas do mundo ainda cabem no divã?

Acredito que, mais do que nunca, recentemente, vimos que havia uma esperança de que a ciência, principalmente a biologia, fosse resolver todas as questões do ser humano. Porém, os avanços da ciência, contrariamente ao que se esperava, só trouxeram mais dúvidas sobre o ser humano. Como uma pessoa pode se situar nessa época? Há um campo imenso da psicanálise nesse momento, mas uma psicanálise renovada, a psicanálise para o século XXI, para o homem pós-moderno, que aposta, que exige a responsabilidade frente às suas opções. Uma psicanálise para o homem e para as empresas.

Sociedade líquida

O que o momento pós-moderno ocasiona na sociedade?

Esse momento pós-modernidade é um instante em que as pessoas se juntam sem se compreender. É um fenômeno! Existe uma nova organização que vem de um novo tipo de amor, que não se explica, mas que funciona no curto-circuito da palavra.

A corrupção pode estar ligada à cultura de um país? Como a psicanálise analisa essa questão?

A lei não consegue legislar sobre todo universo da experiência humana. O homem age independente da lei, mas não está agindo contra a lei, todavia está agindo em um lugar onde não funciona a legislação. Agora, o ser humano tem a lei e formas de burlá-la. O brasileiro é uma pessoa que tem a característica de desconfiar, como aspecto supremo da organização social; ele é afetivo, muito criativo, e ousa mais do que outros povos. Por exemplo, ninguém avisou para Santos Dummont que o homem não podia voar. Somos criativos, porém, com previnitência, com problemas seríssimos. O brasileiro sobrevive de uma maneira feliz, que é uma coisa inacreditável para outros povos. Como é possível ser feliz vivendo, por exemplo, em uma favela? Por outro lado, essa flexibilidade com o império da lei faz também com que o brasileiro a desrespeite e a burle. Nós estamos em um momento em que isso está escancarado. Então, espero que o brasileiro sofra um choque civilizatório e baixe o nível de corrupção selvagem e escandalosa e construa um país mais civilizado.

Entrevista para o Jornal Luxor - Piracicaba, maio 2015

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