"Está todo mundo indignado" (O Estado de São Paulo - 14 de novembro de 2004)

12/11/2004 02h00

Em O ESTADO DE SÃO PAULO de domingo, 14 de novembro, Jorge Forbes contrapõe indignação e honra, entre o cinema de denúncia objetiva de Michael Moore (Fahrenheit) e a subjetividade da ficção, de impacto social mais durador, de Steven Spielberg (Terminal). O artigo estréia sua colaboração regular ao novo caderno "Aliás" do Estadão:

Está todo mundo indignado, vocês notaram? Parece aquele funk que dizia ‘tá tudo dominado’. E os indignados não escondem seu orgulho, chegando a haver concurso de mal-estar: uma enxaqueca versus uma úlcera; um quase enfarte versus um desmaio. O que os indignados não sabem é que a única coisa para a qual servem tão nobres sentimentos é para eles mesmos, narcisistas mal disfarçados em defensores da causa pública, dizendo-se indignados por estarem convencidos de suas dignidades. Qual o quê!

Analisemos dois filmes atuais: o do indignado e falastrão Michael Moore e o do discreto Stephen Spielberg. Moore, depois de Tiros em Columbine, produziu Fahrenheit 9/11. Com uma câmara na mão e muita pança ele invadiu a casa de Charlton Heston, para nos provar como o Moisés luta pela defesa armada da sociedade, não se dando conta, ele Michael, da sua própria violência ao perseguir aquele alquebrado Hur das nossas infâncias, tropeçando escada abaixo. E o que dizer da famosa e ridícula cena de Bush, em Fahrenheit, sentado no banquinho de uma escola de crianças, onde recebeu a informação dos ataques dos aviões? É por ter ficado um tempo aparvalhado que Bush é perigoso? Não, antes esses momentos fossem mais longos, pois o risco para o mundo é quando ele reage, aí sim está o problema, quando ele sai do banquinho e vai para a poltrona oval. Mas Michael Moore é um indignado, como muitos homens de bem se querem indignados, falaria Marco Antonio, nos versos de Shakespeare. Ele pertence a uma classe de cidadão que está na moda: aquela que acredita que a sociedade está desregrada, deteriorada, que estamos caindo no precipício da lama e temos que pôr ordem nessa bagunça através das corretivas aulas de moral e cívica; de controle digital, ou das pupilas; da denúncia pelos psicólogos de seus pacientes, sim, pasmem, estão querendo votar essa norma; da mesma forma que querem que os advogados denunciem seus clientes. Isso não pára, e já tem nome, chama-se sociedade contábil, ou de controle. Contábil porque para Moores e Bushes todo mundo é passível de ser cifrado de alto a baixo em seu corpo, em suas vontades, em seus desejos. Mein Kampf encontra continuação nessas idéias. Essa gente não leu Diderot. Poderiam ter apreendido o famoso Paradoxo do Ator, ou do comediante, querem alguns tradutores. Qual é o paradoxo do ator? É que para representar um bêbado, não é necessário que o ator seja um alcoolista, ou muito menos que beba para entrar em cena, não. O curioso, nota Diderot, é que a alusão que o ator faz ao bêbado é muito mais incomodativa, revolucionária, no sentindo da revolução das tripas, do que um bêbado de fato. A platéia não pode ficar descansada apontando o bêbado em cima do palco. O ator promove o bêbado em cada espectador, tornando-o menos passivo, balançando-o quase imperceptivelmente, enquanto ele ri. Só depois descobrirá que ria de si mesmo. No teatro de Diderot não tem lugar para indignados passivos, só para comprometidos.

E Spielberg? Comparemos Terminal com Fahrenheit. O bom senso vai dizer que o primeiro é uma comédia ligeira e o segundo, uma denúncia séria e necessária. Ah, como o bom senso nada mais é que cumplicidade de ignorância, deixa entender Bachelard. Você assiste Fahrenheit e entende tudo, ele é claro, objetivo, como quer o diretor, mas não muda nada. Desde quando ter conta na Suíça e afirmar que a sua assinatura não é sua tirou voto de candidato? Só indignados acham que a denúncia resolve, vê-se em Minority Report, mais uma vez Spielberg, sobre o futuro da sociedade de controle. Volto ao Terminal. Ao contrário de Columbine, você ri muito no Terminal, do riso solto ao da angústia. Com Moore você se indigna, com Spielberg, você se honra. Em um você perde sua portentosa dignidade, noutro você diminui sua mediocridade, ganha um chamado à honra. Não à honra do peito engalanado de medalhas, mas à honra do detalhe, sem a qual nada vale continuar vivendo. Sim, ir a Nova Iorque só para conseguir a assinatura daquele músico inalcançável para o pai, agora, morto. Bobagem, mas bobagem de fundamento. Spielberg trata do mesmo assunto que Moore, mas não o faz objetivamente, pois ele sabe, como Diderot, que a subjetividade se toca como no jogo de sinuca, pelas tabelas, pelo conto, pelo canto, não pelo documentário explícito. A evidência é sempre pouca para o que se quer demonstrar. Verdade não é certeza, é só demonstração lógica. A certeza está além, no complemento, no inusitado, na surpresa, na alusão, em duplo movimento: o da invenção criativa e a conseqüente responsabilidade pessoal deste ato.