Longe da doença, perto da vida

22/03/2009 03h00

Diário de Natal, domingo - 22 de março de 2009

Diogo poderia ser mais um jovem universitário igual a tantos outros. Mas não é. Não por depender de uma cadeira de rodas para se locomover. Muito menos por sofrer de distrofia muscular. Mas sim por ser protagonista - junto com sua mãe - de uma história de vida que chamou a atenção de pesquisadores de renome internacional no campo de doenças degenerativas. De acordo com o psicanalista Jorge Forbes, Diogo Felipe, 23, mostra-se imune ao que foi denominado de ‘‘vírus’’ R.C (resignação e compaixão). Ao invés de vestir os sentimentos que surgem na maioria dos portadores de doenças degenerativas, ele, depois de sua mãe, assumiu uma postura diferente e positiva diante do diagnóstico médico. Por conta disso o psicanalista e a geneticista Mayana Zatz - referência nacional nas pesquisas no campo de células tronco - decidiram documentar o caso de Diogo na tentativa de aprender como, espontaneamente, é possível para alguém se responsabilizar por sua diferença genética e obter resultados positivos.

Fátima, diferente da maioria das mães de pacientes que apresentam distrofia muscular, optou por aproveitar cada ano de vida de seu filho. ‘‘Busquei ajudar para que sua vida pudesse ser a mais normal possível. É um desafio, mas enquanto leiga e mãe, acredito que foi essa decisão que deixou Diogo longe da doença’’, explicou Fátima Felipe. O diagnóstico de Diogo foi dado quando ele tinha cinco anos de idade. Na época os médicos fizeram uma estimativa de que ele viveria 15 anos no máximo. Hoje, com 23 anos, faz planos de vida como qualquer garoto da sua idade.

A sobrevida de Diogo e a postura otimista de Fátima confirmam a hipótese levantada em pesquisas que reconhecem o poder do indivíduo de alterar a expressão genética. ‘‘Fátima é a essência daquilo que estávamos buscando. Ela não tomou aquela posição de lamúria compartilhada entre as outras mães. Ela é o que (o psicanalista Jacques) Lacan define de mulher desejante’’, teoriza Jorge Forbes. Para ele as mães não devem se tornar enfermeiras dos filhos sob o risco deles virarem seus pacientes. ‘‘As mães devem ser desejosas. Ter desejo pela vida, profissão, sexual’’, exemplifica.

E Fátima é assim. Diogo surpreende quando revela que a principal lição que aprendeu com sua mãe foi a não reclamar de barriga cheia. ‘‘Tem gente em situação pior’’, arremata.

DOCUMENTÁRIO

O vídeo Diogo e Fátima - A desautorização do sofrimento foi lançado em Natal na semana passada. Em 20 minutos narra o fato da evolução da doença de Diogo manifestar-se em ritmo mais lento que o registrado em livros. ‘‘A vida de Diogo permite levantar-se a hipótese segundo a qual o modo como uma pessoa interpreta sua doença influencia na velocidade de sua instalação e na gravidade de sua expressão’’, afirma Forbes. Nele a postura adotada por Fátima foi definida como Efeito Fátima. A interpretação que deu às particularidades do filho fez com que Diogo criasse um modo de viver fora do sofrimento padronizado.

Paralelamente à documentação do caso de Diogo, os pesquisadores acompanham outros 50 casos que comprovam os benefícios obtidos com o que chamaram de Efeito Fátima. As perspectivas para o futuro são as melhores possíveis. Analisar cada caso e descobrir a cura para os portadores de distrofia muscular degenerativa.

Gabriela Freire
Da Eequipe do Diário de Natal