Um minuto de silêncio (O ESTADO DE SÃO PAULO, 18 de fevereiro de 2007)

23/02/2007 02h00

Se os tamborins calarem repentinamente, talvez escutemos a voz da nossa vergonha por João

Jorge Forbes

Proponho que cada bateria de escola de samba, neste carnaval, quando estiver no ápice de sua evolução à frente da comissão julgadora, pare repentinamente por um minuto. Que o breque na alegria faça uma clareira no samba, que um silêncio ensurdecedor se escute por toda a avenida. Que baianas, porta-bandeiras, mestres-salas, todos fiquem imóveis no lugar em que estiverem. Sem mais um passo, por um minuto, só um minuto; o suficiente para nos tomarmos de vergonha pela morte de João, representante de tantos Joões e Marias.

Disse vergonha e não indignação. Ter vergonha de si mesmo é muito diferente de estar indignado pelo outro não ser como você. O indignado, antes de mais nada, se auto-elogia: “sou digno”. Penso na vergonha de nossa cumplicidade acomodada, que hoje chora, mas amanhã já esqueceu. O pior não tem limite. A continuarmos espectadores indignados e defendidos por cercas elétricas, carros blindados, ruas privativas, seguranças fantasiados, o esquartejamento público de um menino de seis anos vai passar, e algo pior, impensável hoje, ocorrerá em breve.

Saiamos do maniqueísmo arbitrário dos debates pretensamente objetivos de maioridade aqui, minoridade lá. Os que defendem a penalização aos 16 anos são os mesmos que tentam provar que crime é erro genético e que a pena de morte é necessária. Há uma coerência nesse raciocínio. Ele se baseia na pretensa previsibilidade do comportamento humano, do “pau que nasce torto morre torto”. Já, já, estarão propondo exame de DNA do recém-nascido para saber se mandam ou não para a cadeia preventivamente.

Não precisamos entender a causa do assassinato hediondo que nos sacode para saber que a punição dos assassinos tem de ser rigorosa, embora jamais se equivalerá à atrocidade cometida. Para essa punição não precisamos mudar a lei, é só pararmos com ritualismos jurídicos tanto obsoletos quanto obsessivos, que empatam há tempos a discussão da cidadania. E que não venham com a velha justificativa de que se não for assim será o tribunal de exceção; nem com o orgulho de uma prudência do tempo senhor da razão, encobridor da falência do sistema jurídico. É claro que um fato como este clama melhor resposta que as que temos, e é no calor do acontecimento que devemos avançar, não quando a distância pintar tudo da mesma cor parda.

Será que já não é hora de dizer que o rei está nu? De percebermos que não se trata mais de aprimorar o sistema jurídico: de 18, para 16 anos, amanhã, para 14; mas de descobrirmos a necessidade de um novo paradigma? Falamos muito que o mundo mudou, que o homem desta nova era globalizada pouco tem a ver com o da era industrial, que somos obrigados a reinventar a forma de trabalhar, de educar, de amar, de curar. Todos os domínios da sociedade passam por uma revolução criativa para viver este novo tempo; e o jurídico? Vão continuar nos entoando as mesmas cantigas de ninar elaboradas em um Iluminismo, hoje, tão cheio de sombras? Orgulhamos-nos quando na ditadura a sociedade civil foi tão bem defendida pelos advogados. Entristecemos-nos - é só lembrar das denúncias de corrupção do ano passado - quando esta mesma classe não enxerga a premência, como as demais, de se reinventar e não de requentar a mesma sopa. Acharam que o povo indignado, alertado por suas trombetas garbosas, votariam em quem lhes parecia impoluto, na recente eleição presidencial. Qual o quê, que erro!

O laço social do homem globalizado, participativo e não hierárquico, como antes, exige novas formas de julgamento, que não são o aprimoramento do que havia, mas ruptura, invenção. Isto não se dando do dia para a noite, teremos ainda que conviver com o velho sistema, mas sabendo-o remendo provisório e não solução.

Defendia a vergonha como o sentimento necessário para este momento. Não a vergonha do outro, ao ser pego com a mão na botija, mas a vergonha fundamental de existir, quando já não vale mais a pena. Quando a vida de um menino se compara à de um boneco de festa junina, socado e arrastado pelo asfalto, aos olhos de todos, a pena é grande demais!

É ilusório ficar esperando pelo futuro melhor do Brasil. O Brasil é o País do futuro porque aqui o futuro nunca chega. É o presente que deve nos guiar e não a utopia; seja a positiva, do sonho, seja a negativa do pesadelo e do medo.

Se continuarmos na política do salve-se quem puder se entrincheirar em condomínios fortificados - “gaiolas de ouro” - o desastre é previsível: o recuo do agredido cria e reforça o agressor. Lembremos quão poucos presidiários pararam a maior cidade da América Latina, por telefone. Todos os que saíram correndo de seus empregos para se defenderem não intuíram o óbvio: que ficariam presos à deriva, em um congestionamento jamais visto, para surpresa dos prisioneiros.

Precisamos de um tipping point, como o descrito pelo jornalista canadense, Malcom Gladwell. O “ponto de desequilíbrio”, assim traduziram, ocorre quando uma comunidade passa, de um momento a outro, a ver o mesmo fato de uma forma totalmente diferente. Por exemplo: em que tenham valido os esforços do prefeito Rudolph Giuliani, de Nova York, em baixar a violência com o seu plano de tolerância zero, não é de se desprezar a importância do “ponto de desequilíbrio”. No caso, a população, de amedrontada a pôr um pé fora de casa, passou a se sentir segura, acreditando ver um guarda em cada esquina, não corrupto e amigo. Dificilmente isso seria possível, mas não importa: da mesma forma que a sensação térmica tem um valor diferente da temperatura, aqui também a sensação de segurança é mais importante que os índices objetivos. A sensação de segurança gera segurança, da mesma forma, a sensação de agressão gera agressividade.

Onde está o “ponto de desequilíbrio” que nos conduzirá deste descalabro social para uma cidadania colaboradora e honrada? Talvez no silêncio repentino dos tamborins de nossas escolas de samba. Por um minuto só, na avenida, compartilharemos de uma mesma vergonha: somos brasileiros e o Brasil não precisa ser assim, se nós quisermos.