INCONSCIENTE E RESPONSABILIDADE
Psicanálise do Século XXI

10/02/2012 19h16

capa livro

Editora Manole, 2012.
Lançamento em 6 de março de 2012.

[...] O inconsciente do qual vamos tratar é aquele que leva o ser falante a responsabilizar-se pela invenção de seu estilo singular de usufruir de seu corpo e de sua vida. No discurso da psicanálise difundida nos meios de comunicação, responsabilidade e inconsciente não são termos que aparecem conjugados, chegando a ser considerados excludentes. Assim, a responsabilidade estaria associada à consciência plena e onde houvesse inconsciência não poderia haver responsabilidade. Diante de um ato que cometeu – voluntária ou involuntariamente – e sobre o qual estranha a própria participação, é comum a pessoa dizer: ‘Só se foi o meu inconsciente’. No século xxi, o psicanalista que acredita no inconsciente irresponsável não trata o sintoma e não cura. É urgente considerar a responsabilidade pelo que é inconsciente, pois já não podemos mais contar com as ficções – tais como a do mito paterno – que, até o século passado, nos permitiam escapar, dizendo: ‘Foi por causa de papai’. Também a clínica psicanalítica, por essas mesmas razões, atravessa um novo momento. […]”

 Comentários

Ao escrever “Inconsciente e Responsabilidade”, Jorge Forbes fez seus colegas se sentirem menos sós. Os que apostavam na possibilidade de instalar a experiência analítica em sociedades horizontais, mas não sabiam qual direção clínica adotar, encontraram alento e esperança ao ler o manuscrito. O que fazer para tratar pacientes sem queixa nem culpa? O que fazer com as legiões de apáticos que sofrem da falta de alegria de viver, mas não encontram ânimo para alterar sua vida?  De modo claro e convincente, Forbes expôs os princípios de uma Psicanálise que, honrando a herança de Jacques Lacan, leva cada um de nós a encontrar, na vergonha, seu ponto de ancoragem. Visitando a clínica, a escola, a família, o direito e a empresa mostrou que, paradoxalmente, a vida nasce do encontro com a morte. Levou o leitor a perceber que a responsabilidade psicanalítica pode ser instalada quando, para além da famosa luta pela sobrevivência, o sujeito se depara com algo pelo qual valeria a pena perder a vida. Um livro de cabeceira.
Claudia Riolfi

Em Inconsciente e responsabilidade: uma psicanálise para o século XXI, Jorge Forbes devolve à psicanálise toda a sua virulência, explorando pistas abertas por Jacques Lacan, particularmente a partir do que é conhecido como “a segunda clínica”, que se pode identificar no seu ensino nos anos 70. 
Sublinhando que já se encontra o conceito de responsabilidade pelos sonhos em Freud, e pela nossa posição de sujeito em Lacan,  Jorge  Forbes vai desenvolver o conceito de responsabilidade pelo inconsciente, “ inconsciente” entendido aqui não mais como acidente que traz efeitos indesejáveis que precisam ser sanados pelo levantamento do recalque via interpretação, mas como encontro com o acaso, a tiqué, cerne do inconsciente, “estranho” onde não me reconheço e que, no entanto, constitui meu mais íntimo, e pelo qual não posso deixar de me responsabilizar .
Proposta implacável: ser responsável pelo que lhe acontece! Mas no encontro com o real, não há negociação discursiva possível, desculpas ou justificativas.  Ele é.
A psicanálise aparece assim não como remédio ao desbussolamento do homem no mundo globalizado, órfão dos grandes discursos provedores de sentido, mas sim como a possibilidade de fundação de um novo laço social, baseado não mais na palavra cheia de sentido que leva à compreensão entre indivíduos, mas no ressoar da palavra no corpo, além da significação; no lugar do diálogo, monólogos articulados.
As conseqüências para a clínica psicanalítica, na condução da análise e no final de análise, são mostradas e comentadas com precisão por relatos de apresentação de pacientes, e dão a exata idéia de como age a “segunda clínica” lacaniana: clínica do equívoco visando a implicar o sujeito na sua fala.
Mas devolver à psicanálise toda sua virulência é também mostrar os efeitos que ela pode ter no mundo: na família, na empresa, na escola, como ela pode permitir, não recuperar um passado, mas participar na “ invenção do futuro”. 
Uma questão me persegue: porque uma leitura da psicanálise tão precisa, clara e  inovadora é produzida no Brasil, enquanto uma massa de produção intelectual - na França, por exemplo – que serve muitas vezes de material de estudo para os analistas brasileiros, não chegou a fornecer uma obra dessa densidade para pensar uma psicanálise para o século XXI?
Muito obrigado Jorge Forbes.
Alain Mouzat